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Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Sex | 26.09.25

Reconhecer a Palestina é enviar “uma mensagem muito clara: matar judeus compensa” — sobre um discurso vergonhoso e o que realmente importa

Nelson Pradinhos

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Há palavras que não se dizem à toa — e há outras que, ditas por quem tem responsabilidade política, ferem não apenas a verdade dos factos, mas a dignidade de milhões de pessoas. Se aquilo que foi reportado do discurso de Benjamin Netanyahu nas Nações Unidas foi mesmo proferido, trata-se de uma declaração chocante e inaceitável. É vergonhoso que um líder faça de uma questão diplomática complexa uma arma retórica que alimenta o medo e a desinformação.

Reconhecer um Estado não é um apelo à violência. Reconhecimento diplomático é um acto político que visa trazer soberania, responsabilidade internacional e possibilidade de negociação com igualdade. Dizer o contrário — insinuar que reconhecimento será um convite para crimes — distorce por completo o significado e a função do direito internacional. Mais grave: transforma uma necessidade humanitária e política em pretexto para fomentar ódio e insegurança.

O mundo precisa de menos gritos e mais medidas que protejam civis e garantam direitos. Hoje, quando vemos mulheres, homens e crianças a sofrerem em zonas de conflito, reduzir um gesto diplomático a um “benefício” para a violência é um insulto às vítimas de ambos os lados. A verdade é dura e simples: a ocupação, as expulsões, os bombardeamentos, as incursões e os ataques terroristas alimentam um ciclo que só produz mais dor. E é esse ciclo que exige soluções sérias — cessar-fogo, investigação independente de violações de direitos humanos, reabilitação de vítimas, acesso humanitário e, sobretudo, vontade política para negociar uma paz sustentável.

É legítimo discordar de reconhecimentos unilaterais ou de timings diplomáticos. É lícito colocar reservas, propor condições e debater estratégia. Mas há linhas que não devem ser cruzadas: a instrumentalização do sofrimento para alimentar narrativas simplistas e as palavras que incitam ao medo ou ao ódio. Líderes têm a obrigação moral de acalmar, não de inflamar.

Reconhecer a Palestina — ou qualquer outro Estado — deveria ser um passo em direcção à responsabilização e proteção: dar voz diplomática às populações, permitir mecanismos internacionais de cooperação e fiscalização, e criar condições para que a justiça e a segurança deixem de ser privilégio de poucos. Enquanto isso não acontecer, o importante é não perder de vista o essencial: proteger civis, procurar verdade judicial para as violações e defender o direito inalienável de todos viverem em segurança.

Por fim, um apelo pessoal e político: condenar a violência em todas as suas formas — terrorismo, limpeza étnica, ataques indiscriminados — e defender os instrumentos da diplomacia. A paz não vem de slogans fáceis nem de frases destinadas a acirrar multidões. Vem de coragem política, de diálogo duro e honesto, e do respeito pelos direitos humanos.

Se te indigna o que ouviste, usa a tua voz. Escreve, partilha factos, exige respostas dos teus representantes e apoia organizações que trabalham pela proteção de civis e pelo respeito do direito internacional. A nossa responsabilidade colectiva é lembrar sempre quem sofre — e trabalhar para que a palavra “humanidade” pese mais nas decisões do que a retórica vazia.

 

Nelson Pradinhos

 

Sex | 26.09.25

"Nasci para Isto" de Alice Oseman

Nelson Pradinhos

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“I think the truth is that everyone in the entire world is confused and nobody understands much of anything at all.”

Este foi o meu primeiro livro de Alice Oseman — e agora percebo porque é que os seus livros conquistam tantos leitores. A escrita é simples, direta, sem floreados desnecessários, mas ainda assim consegue agarrar-nos do início ao fim. Foi uma leitura leve, mas com muito para pensar, exatamente o que procuro quando quero fazer uma pausa de leituras mais pesadas.

A história acompanha Angel Rahimi, uma jovem muçulmana hijabi apaixonada pela boysband The Ark. O fandom deu-lhe tudo: amizade, sonhos e um lugar no mundo. A sua representação como personagem muçulmana é, para mim, um dos grandes pontos fortes do livro: natural, humana e realista — sem exageros, sem estereótipos. Angel é apenas uma rapariga que reza, que vive a sua fé e que, ao mesmo tempo, vibra com música e sonha como qualquer jovem.

Do outro lado temos Jimmy Kaga-Ricci, vocalista dos The Ark. Jimmy é um rapaz trans, gay e ansioso — e foi tão bom ver uma representação desta diversidade feita com respeito e profundidade. A sua ansiedade foi, para mim, muito relacionável, e tornou-o ainda mais humano.

O livro fala sobre fandoms, mas podia ser sobre qualquer outra paixão que nos dá ânimo para viver. Mostra como é importante ter algo a que nos agarramos, algo que nos faça sentir bem — mas também como podemos perder-nos se deixarmos que essa paixão se torne o centro absoluto da nossa vida.

“That's why people get into fandom and bands and stuff. They just want something to hold on to something that makes them feel good. Even if it's all a big lie.”

No final, fiquei de coração cheio, mas também com uma pontinha de tristeza pelo desfecho, que deixou algumas questões em aberto. Talvez por isso me tenha sabido a pouco — mas também é sinal de que a história me conquistou verdadeiramente.

Alice Oseman sabe como criar personagens diversas, humanas e imperfeitas, e transformá-las em espelhos de tantos de nós. Foi uma leitura que me marcou, e quero definitivamente continuar a explorar a sua obra.

 

⭐ Classificação: 4,5/5