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Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Sex | 03.10.25

"Vamos receitar-lhe um gato" de Syou Ishida

Nelson Pradinhos

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"A cat a day keeps the doctor away."

Esta é a premissa que guia o livro de Syou Ishida, uma obra que mistura ternura, comédia e um toque de realismo mágico.

A história desenrola-se na enigmática Clínica Kokoro, um espaço escondido, quase impossível de encontrar, e que só aparece a quem mais precisa. Ali, o excêntrico Doutor Nikke e a sua recepcionista pouco simpática prescrevem… gatos. Sim, gatos como forma de terapia, de companhia e, no fundo, como remédio para a alma.

Cada capítulo apresenta-nos um novo paciente: alguém perdido, cansado, a precisar de um abraço silencioso que só um felino pode dar. E cada gato “receitado” torna-se a chave para reequilibrar a vida dessas pessoas. O formato repete-se de forma algo previsível, mas ao mesmo tempo cria um padrão reconfortante, quase como um ritual de cura.

O livro é charmoso e leve, mas não deixa de ter momentos de grande emoção. O último capítulo, em especial, é de cortar o coração, ao abordar a perda de um gato — uma dor que qualquer tutor de felinos conhece bem.

Apesar de ter achado a leitura simpática e acolhedora, senti que faltou alguma profundidade e variação na narrativa. Talvez por isso a minha avaliação tenha ficado pelas ⭐⭐⭐ em 5. Ainda assim, recomendo-o a quem gosta de histórias curtas, que misturam fantasia com reflexões simples sobre a vida — e, claro, a quem não resiste à magia dos gatos. 

 

⭐ Classificação: 3 / 5

 

Sex | 03.10.25

"Il ragazzo dai pantaloni rosa"

Nelson Pradinhos

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Há filmes que nos emocionam pelo enredo, outros pela estética, e alguns que simplesmente nos marcam pela forma como espelham realidades que preferimos não ver. Il ragazzo dai pantaloni rosa pertence a este último grupo. É uma obra sensível, dura e ao mesmo tempo delicada, que aborda a adolescência, a identidade e o peso da diferença num mundo que tantas vezes não sabe lidar com quem foge à norma.

O protagonista carrega nas suas inseperáveis calças cor de rosa não apenas uma peça de roupa, mas um manifesto silencioso. O rosa, frequentemente associado à fragilidade ou ao não pertencer a um mundo masculinizado, torna-se símbolo de resistência. Cada passo que ele dá com elas vestidos é uma afirmação: este sou eu, e não vou esconder-me.

Ao longo da narrativa, acompanhamos as suas dores: os olhares desconfiados, os risos maldosos, o preconceito que se cola à pele. Mas também vemos os pequenos instantes de ternura, de amizade e até de amor, que mostram que a vida, mesmo nos momentos mais sombrios, sempre guarda uma fresta de luz.

 

Temas que atravessam o filme: 

Identidade – O filme questiona o que significa ser fiel a si mesmo numa fase tão frágil como a adolescência. O rapaz das calças rosa ensina-nos que identidade não é sobre agradar os outros, mas sim sobre aceitar quem somos.

Preconceito – Mostra de forma nua e crua o impacto da discriminação. Não apenas o bullying visível, mas também os silêncios, os olhares e as ausências que magoam tanto quanto as palavras.

Empatia e amor – Apesar da dureza, o filme recorda-nos que basta um gesto de compreensão para transformar a vida de alguém. Uma mão estendida, um sorriso, um “eu aceito-te” podem ser forças mais poderosas do que todo o ódio.

 

Uma experiência que fica

A fotografia do filme é poética: as cores, a luz e até os silêncios criam um contraste entre a dureza da realidade e a beleza daquilo que ainda é possível sonhar. É impossível não nos sentirmos tocados.

Apesar de triste, amei este filme. Amei porque me fez sentir. Amei porque me fez refletir sobre o quanto ainda falta caminharmos enquanto sociedade. E amei porque, no fundo, deixa uma mensagem de coragem: a de que ser diferente não é um defeito, é uma força.

Il ragazzo dai pantaloni rosa é um lembrete de que a empatia pode ser o antídoto contra o preconceito. E é também um abraço silencioso a todos os que já se sentiram deslocados, julgados ou incompreendidos.

 

⭐ Classificação: 5/5