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Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Qua | 08.10.25

🌈 Bruxelas quer pôr fim ao discurso de ódio e às “práticas de conversão” contra pessoas LGBTQIA+

Nelson Pradinhos

epa10682959 People carry a rainbow flag as they take part in the 5th Annual Nepal Pride Parade in Kathmandu, Nepal, 10 June 2023. Hundreds of Nepalese Youths and LGBTQIA activists participated in the parade demanding equal legal rights to mark the Pride Month of June.  EPA/NARENDRA SHRESTHA

Nos últimos anos, a Europa tem assistido a um aumento preocupante de discursos de ódio e discriminação contra pessoas LGBTQIA+.
Mas esta semana, a Comissão Europeia deu um passo importante: apresentou uma nova estratégia para a igualdade e proteção das pessoas LGBTQIA+, que será aplicada entre 2026 e 2030.

A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, anunciou medidas concretas para combater o discurso de ódio, tanto offline como online, e para apoiar os Estados-membros a acabar de vez com as chamadas “práticas de conversão” — métodos pseudocientíficos que tentam alterar a orientação sexual ou a identidade de género de uma pessoa.
Essas práticas, além de serem sem base científica, são consideradas formas de violência psicológica e emocional.

 

🕊️ Uma Europa onde todos se sintam livres

Segundo a estratégia apresentada, o objetivo é claro: garantir que qualquer pessoa na União Europeia possa viver livremente, amar quem quiser e ser quem é, sem medo de discriminação.

Para isso, Bruxelas vai criar um hub europeu para monitorizar o discurso de ódio online, recolhendo dados e promovendo uma resposta mais eficaz a nível europeu.
Paralelamente, será lançada uma iniciativa para banir práticas de conversão em todos os Estados-membros, apoiando legislações nacionais que criminalizem este tipo de abusos.

 

💼 Igualdade também no trabalho

A Comissão sublinha que a discriminação com base na orientação sexual ou identidade de género não é apenas uma questão de direitos humanos — é também um entrave económico.
Estima-se que a União Europeia perca cerca de 89 milhões de euros por ano devido à exclusão de pessoas LGBTQIA+ no mercado de trabalho.
Para mudar esse cenário, será criado um código europeu de boas práticas na contratação inclusiva, incentivando empresas a promoverem igualdade e diversidade nas suas equipas.

 

🌍 Um passo necessário

Esta nova estratégia representa um compromisso renovado com os valores fundadores da União Europeia: liberdade, igualdade e respeito pela dignidade humana.
Numa altura em que o discurso de ódio e a polarização aumentam em vários países, é um lembrete de que a proteção das minorias é essencial para a democracia.

A sigla LGBTQIA+ engloba lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros, queer/questioning, intersexuais, assexuais e outras identidades de género e orientações sexuais.
Mas, mais do que letras, representa pessoas reais, com histórias, sonhos e direitos que merecem ser respeitados.

 

✨ Que esta Europa que se quer mais justa e mais livre seja também um espaço seguro para todos — sem exceção.

 

Qua | 08.10.25

Livros ilustrados, café e bolos: a Zumbido é uma nova livraria para descobrir em Matosinhos

Nelson Pradinhos

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Há lugares que pedem para ser visitados devagar.
Com tempo.
Com calma.
Com o coração aberto e um café quente nas mãos.

Recentemente, li uma reportagem sobre um novo espaço em Matosinhos que me deixou com um sorriso no rosto e uma enorme vontade de lá ir: a livraria Zumbido.
Um nome curioso, cheio de vida e de som — tal como o espaço que promete ser um pequeno refúgio para quem gosta de livros ilustrados, café e bolos.

A Zumbido abriu portas no dia 20 de setembro e é o projeto de Joana Domingues, uma mulher que trocou a televisão e o cinema por um sonho feito de páginas, histórias e pessoas.
Mais do que uma livraria, Joana quis criar um espaço de encontro, onde se possa entrar sem pressa, folhear livros, conversar e, quem sabe, sair com um novo amigo literário debaixo do braço.

O que mais me encantou neste projeto é o seu propósito: ser um manifesto contra a correria e a desinformação dos dias de hoje.
Joana acredita — e com razão — que os livros continuam a ser uma das formas mais puras e honestas de aprender sobre liberdade, democracia e felicidade.
E, por isso, nas prateleiras da Zumbido há muito mais do que histórias infantis. Há livros que falam de política, de direitos e de empatia, escritos de forma acessível e bonita, para leitores de todas as idades.

A livraria tem uma vasta seleção infantojuvenil, banda desenhada, novelas gráficas, manga e até livros para adultos curiosos.
Mas o encanto não se fica por aí.
Há também uma cafeteria com café de especialidade e doces portuenses — bolachas, rolinhos de canela e pastelaria que convida a ficar.
A ideia é simples: chegar, sentar, respirar e deixar o tempo passar entre páginas e aromas.

Nos fins de semana, o espaço ganha ainda mais vida.
Há hora do conto, uma ludoteca com jogos de tabuleiro, um piano à espera de quem o toque e até uma cave multifunções, pronta para acolher exposições ou sessões de cinema.
Ah — e é pet friendly, o que significa que até os nossos amigos de quatro patas são bem-vindos a este pequeno paraíso literário.

Ainda não visitei a Zumbido, mas já está marcada na minha lista para as próximas férias.
Sinto que é o tipo de lugar que se visita com os sentidos todos despertos — o olhar para os livros, o olfato para o café, o ouvido para o zumbido das conversas baixas e o coração para o conforto que só uma livraria com alma consegue dar.

📍 Zumbido – Rua Conde S. Salvador 324 r/c 4450-264 Matosinhos
 HORÁRIO:
Terça a sexta-feira das 10 às 19 horas
Sábado das 10 às 17 horas
Domingo e segunda-feira fechado

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REDES SOCIAIS: 

Instagram

Website

 

Qua | 08.10.25

"A Guerra de Putin Contra as Mulheres - Uma história antiga de violência e opressão" de Sofi Oksanen

Nelson Pradinhos

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Sofi Oksanen, uma das vozes mais poderosas da literatura nórdica contemporânea, mergulha em A Guerra de Putin contra as Mulheres nas raízes mais sombrias do poder e da violência. Não é apenas um ensaio político — é um grito de alerta, uma análise fria e lúcida sobre como o corpo feminino tem sido, ao longo da história, transformado em território de guerra.

Oksanen escreve com uma clareza cortante.
Mostra-nos como a violência sexual e o controlo do corpo das mulheres são usados como armas políticas — desde as guerras da ex-União Soviética até à atual invasão da Ucrânia.
Mas também fala da propaganda, da desinformação e da forma como os regimes autoritários constroem narrativas que perpetuam o medo e a submissão.
É um texto duro, por vezes difícil de ler, mas necessário — sobretudo porque dá nome e rosto às vítimas, e obriga-nos a encarar o que preferíamos ignorar.

O livro combina investigação rigorosa com uma escrita profundamente humana.
Oksanen faz aquilo que poucos conseguem: transforma a dor em lucidez.
Cada capítulo é uma ferida aberta — mas também um gesto de resistência.

Gostei da forma como a autora não se limita à crítica política. Ela vai mais fundo, mostrando como a misoginia é uma ferramenta de poder e como a opressão das mulheres está entranhada em sistemas que fingem ser “tradição”, “valores” ou “patriotismo”.
Ler este livro é perceber que a guerra contra as mulheres não começa nem termina nos campos de batalha.

É um livro para se ler devagar, com tempo, com espaço para respirar e pensar.
E é também um lembrete de que a literatura tem o poder de dar voz a quem foi silenciado, de nomear o indizível e de iluminar o que o poder tenta esconder.

Em tempos de ruído e desinformação, A Guerra de Putin contra as Mulheres é um daqueles livros que devolvem clareza.
É urgente. É corajoso. É brilhante.

 Recomendo vivamente a quem se interessa por direitos humanos, política contemporânea, história e, sobretudo, por compreender como o género e o poder se entrelaçam nas guerras — visíveis e invisíveis — do nosso tempo.

 

⭐ Classificação: 5 / 5

 

Qua | 08.10.25

"Pessoa de Aluguer que Não Faz Nada" de Shoji Morimoto

Nelson Pradinhos

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“Today, I'm starting a 'rent a person who does nothing' service. Except for very simple conversation, I'm afraid I can do nothing.”

 

Shoji Morimoto era constantemente apelidado de “faz-nada”, por falta de iniciativa ou ambição. Desanimado e cansado de um trabalho aborrecido e stressante, decidiu transformar essa ideia num conceito completamente novo: criar um serviço onde as pessoas o podem alugar para não fazer nada.
E sim, isso mesmo — não fazer nada. E, surpreendentemente, resultou! Até hoje, já foi “alugado” mais de quarenta mil vezes.

Este livro não é uma autobiografia típica. Na verdade, é uma leitura sobre o nada — e, ao mesmo tempo, sobre tudo. Não há uma grande jornada, nem um enredo cheio de acontecimentos. É uma sucessão de momentos, reflexões e pequenos encontros que, no conjunto, revelam muito sobre a natureza humana e a solidão.

Achei muito curioso perceber as diferentes razões que levam as pessoas a contratar o Shoji. Desde quem precisa de um acompanhante para um evento, até quem apenas quer que ele pense nessa pessoa num determinado dia e lhe deseje coisas boas. Por trás de todos esses pedidos, há uma necessidade comum: a de se sentir visto, ouvido e compreendido, mesmo que por alguém que “não faça nada”.

É um livro curto, de leitura leve e rápida, que combina anedotas reais com algumas observações sobre amizade, empatia, o papel do dinheiro e a forma como nos relacionamos nos dias de hoje. Apesar de não ser uma leitura arrebatadora — talvez por ser mais reflexiva do que envolvente —, é uma ideia original e que nos deixa a pensar no que realmente significa “fazer algo” e “estar presente”.

Em suma, um livro pequeno, mas com uma grande mensagem. 
Recomendo a quem procura algo diferente, fora da caixa e que faça parar um bocadinho para refletir.

 

⭐ Classificação: 3,5 / 5