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Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Sex | 17.10.25

Morreu Baek Sehee, autora de "Quero Morrer, mas Também Quero Comer Tteokbokki"

Nelson Pradinhos

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Hoje recebemos a triste notícia de que Baek Sehee, autora de "Quero Morrer, Mas Também Quero Comer Tteokbokki" (em inglês I Want to Die but I Want to Eat Tteokbokki), faleceu aos 35 anos

Embora a causa da morte ainda não tenha sido divulgada publicamente, sabe-se que, após o seu falecimento, ela doou órgãos que salvaram cinco vidas — coração, pulmões, fígado e rins.

Baek Sehee ficou conhecida por ter documentado, com honestidade e simplicidade comovente, o seu percurso com a distimia, um tipo persistente de depressão, através de conversas com o seu psiquiatra e ensaios pessoais. 

 

Uma voz que permaneceu: 

Para quem leu o seu livro (como é o meu caso), esta notícia traz uma mistura de tristeza e respeito profundo.
Baek transformou o que muitos sentem em silêncio — o peso das emoções que não se sabe expressar, a luta constante para seguir — em palavras que muitos puderam reconhecer como suas.

Seu livro não era um manual de cura, nem oferecia soluções mágicas. Ele era um espelho para quem luta, uma mão estendida no escuro, uma voz que dizia: “Você não está sozinho.”
Sua coragem em expor fragilidade foi também fonte de força para muitos leitores ao redor do mundo.

 

Legado e lembrança:

Seu livro tem sido traduzido em diversos países, alcançando leitores além da Coreia, e ajudando a normalizar conversas sobre saúde mental.

Ela se tornou símbolo de vulnerabilidade reconhecida, lembrando-nos da importância de falar, partilhar, ouvir — sobretudo quando a dor é interior.

A generosidade dela ficou evidente também em seu ato final: a doação de órgãos foi um gesto concreto de amor — de transformar um fim em nova vida para outros.

 

 Palavra final: 

Estou triste com esta partida.
Mas mais do que chorar, quero que o que ela escreveu continue a ser lido, discutido, compartilhado.
Que sirva de consolo para quem sente o peso do silêncio e de lembrete de que vulnerabilidade não é fraqueza — é humanidade.

Baek Sehee, que descanse em paz. E que sua voz ecoe, ainda, nos corações que precisam de palavras que digam: “Mesmo quando tudo dói, ainda vale a pena tentar existir.”

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Sex | 17.10.25

"Quero Morrer, Mas Também Quero Comer Tteokbokki" de Baek Sehee

Nelson Pradinhos

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Este não é um romance nem uma história fictícia com final perfeito. É uma autobiografia + livro de ensaios / reflexões, em que a autora coreana Baek Sehee partilha, com grande honestidade, a sua experiência com distimia — uma forma persistente de depressão — através de doze semanas de sessões de psiquiatria, intercaladas com micro-ensaios seus. 

O título em si já diz muito: “Quero Morrer, Mas Também Quero Comer Tteokbokki” — há um contraste brutal entre o desejo de desistir e o apetecer de algo simples, reconfortante, quase humano, como um prato de rua. Esse contraste dá o tom ao livro: melancolia com pitadas de luz, sofrimento com vontade de continuar. 

 

✔️ O que gostei

Honestidade crua
A autora não tenta maquilhar os seus pensamentos, nem fingir que tudo está bem. Ela mostra o que sente — a ansiedade, o julgamento de si mesma, o cansaço de fingir — e isso faz com que o livro seja profundamente empático.

Formato dialogado + ensaios reflexivos
Alternar entre as sessões com o psiquiatra (diálogo) e os ensaios pessoais torna a leitura mais variada e acessível. Ajuda a quebrar momentos mais pesados, permite respirar, refletir. 

Reconhecimento de algo comum
Mesmo quem não vive distimia ou depressão persistente pode identificar-se: ansiedade, dúvida sobre si mesmo, crítica interna, sensação de estar “bem por fora, mas a apodrecer por dentro”. Esse sentimento é tão humano. 

Leitura leve apesar do tema pesado
O livro fala de dores reais, mas não pesa demasiado. Tem momentos de humor suave, autorreflexão e “pausas” que permitem ao leitor respirar. Não é um livro para ler de uma assentada pesada — mas para acompanhar, talvez devagar. 

 

 O que menos gostei:

Alguns temas pouco aprofundados
Apesar da sinceridade, certos tópicos são apenas tocados de leve (por exemplo, o uso do álcool ou relações que se complicam), sem muito desenvolvimento ou soluções práticas profundas. A psiquiatra dá sugestões, mas às vezes parecem pouco exploradas.

A sensação de um ciclo que não termina
Isto não é propriamente um aspecto negativo — é parte da realidade da distimia — mas senti que o livro deixa a impressão de que algumas batalhas continuam indefinidamente, e isso pode ser frustrante para quem procura respostas mais “fechadas”. Mas percebo que talvez não seja esse o propósito do livro.

Pouca novidade para quem já leu muitos relatos de saúde mental
Se já estás habituado(a) a ler memórias, blogs ou outros testemunhos sobre depressão, talvez este livro não surpreenda bastante no estilo ou nas ideias centrais. A singularidade está nos detalhes, mas a estrutura geral pode sentir-se familiar.

 

 Minha conclusão: 

Este é um livro que recomendo muito — não porque resolve tudo, mas porque faz companhia. Porque mostra que estar em baixo não é vergonha, que buscar ajuda é válido, e que há valor em pequenas coisas como o prazer de comer algo de que gostamos.

Dou-lhe 4 estrelas porque é honesto, comovente, bem escrito. Se tivesse mais profundidade em todos os temas ou um ritmo um pouco mais consistente, talvez tivesse sido um 5, mas acredito que todas as suas virtudes compensam, e muito.

 

 Para quem este livro é ideal: 

Para quem sente que às vezes vive um “estado de espera” emocional — nem bem, nem mal, mas cansado;

Para quem procura textos que façam sentir menos só, que mostrem que outras pessoas também têm dias escuros;

Para quem gosta de memórias/ensaios sobre saúde mental, autorreflexão, e pequenos gestos de cuidado consigo mesmo;

Para leitores curiosos sobre cultura sul-coreana, sobre como se aborda o tema da depressão noutras sociedades.

 

⭐ Classificação: 4 / 5

 

Sex | 17.10.25

"Griffin in Summer"

Nelson Pradinhos

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Griffin in Summer é um filme indie de “coming-of-age”, escrito e dirigido por Nicholas Colia no seu primeiro longa-metragem.

A história acompanha Griffin Nafly, um rapaz de 14 anos, dramaturgo em expansão, vivendo com os seus pais num subúrbio comum. Ele decide passar o verão a escrever uma nova peça teatral, mas a sua criatividade e ambição vão sendo perturbadas quando surge Brad, um homem de 25 anos, faz-tudo contratado pela mãe de Griffin para uns consertos em casa. Brad não é perfeito: vive com os sonhos de ser artista, regressou de Nova Iorque, tem fragilidades, erros, inseguranças. 

Griffin, curioso, apaixonado (por formas inesperadas de amor), imprimindo Brad na sua peça, experienciando o despertar de sentimentos, de identidade, de sonhos que talvez sejam demasiado grandes para a idade. 

 

 O que gostei bastante:

Personagem principal forte. Griffin tem uma voz singular: ambicioso, idealista, vulnerável. A interpretação de Everett Blunck consegue transmitir esse misto de força e insegurança de quem sente intensamente.

Equilíbrio entre humor, dor e descoberta. O filme anda entre momentos engraçados (as distrações, os desencontros de expectativas) e momentos mais sérios de autoconhecimento. Esse contraste torna a narrativa mais rica. 

Representação LGBTQIA+ natural e delicada. O filme não dramatiza excessivamente o facto de Griffin ser gay — é parte da sua experiência, mas não define tudo. Isso mostra uma maturidade narrativa.

Atmosfera do verão + teatro como metáfora. A ideia de usar o teatro, os ensaios, a arte de dramatizar, de escrever e de projetar os sentimentos na peça, tudo isso funciona muito bem como meio de explorar os sonhos e as frustrações de um adolescente. E o verão — com a liberdade, com o sal, com a melancolia leve — tem um papel importante.

 

 O que faltou: 

Alguns momentos previsíveis. A estrutura dramática, a forma como o crush é desenhado, as inseguranças, os desencontros já são temas frequentes no género coming-of-age. Embora o filme traga frescura, em alguns pontos senti que sabia para onde ia.

Desenvolvimento de personagens secundárias. Personagens como amigos de Griffin ou mesmo a figura maternal (mãe dele) têm papel significativo, mas por vezes não têm profundidade tão grande quanto poderiam; ficamos com vontade de ver mais sobre elas.

Tom desigual em certas cenas. Há sequências com tom muito leve, quase caricaturesco, que de repente pulam para emoções mais pesadas. O contraste funciona, mas em alguns momentos senti que a transição não foi tão suave — deixando um pouco a sensação de “estou a entrar num drama de repente”.

 

 Minha impressão final:

Griffin in Summer é um filme para ver com empatia, para recordar o primeiro verão em que tudo parecia poder acontecer. Amores complicados, identidade em construção, o palco que espelha a vida.

Dou 4 estrelas porque senti que o filme consegue ser muito bonito, com boas ideias, boa execução, mas ainda há espaço para algo mais — talvez mais coragem nas arestas, mais surpresa nas dores, mais risco narrativo.

 

 Para quem recomendo:

Leitores/espectadores que gostam de filmes de amadurecimento e descoberta emocional;

Quem aprecia narrativas LGBTQIA+ contadas com inocência, humor e franqueza;

Quem gosta de cinema indie, de personagens que respiram, de ambientes que misturam arte com vida real;

Ideal para ver numa tarde de verão, ou numa noite tranquila em que se queira algo para sentir, não apenas para distrair.

 

⭐ Classificação: 4 / 5

 

Sex | 17.10.25

"Something Like Summer"

Nelson Pradinhos

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Há filmes que não precisam de grandes efeitos ou reviravoltas para nos tocar — bastam emoções verdadeiras e personagens que parecem respirar fora do ecrã. Something Like Summer é um desses filmes.

Baseado no romance de Jay Bell, este é um drama romântico LGBTQIA+ que segue Ben Bentley, um jovem abertamente gay que se apaixona por Tim Wyman, o rapaz popular que ainda vive preso entre o medo e o desejo. A relação entre os dois nasce no silêncio de uma amizade improvável, e cresce entre segredos, afastamentos e reencontros ao longo dos anos.

O que mais me marcou neste filme foi a forma como retrata o tempo — não só o tempo das estações, mas o tempo das pessoas. A vida de Ben e Tim passa por fases como o verão e o inverno: cheia de luz, depois fria e distante, depois novamente em flor. Há algo de profundamente humano nesta ideia de que o amor não é uma linha reta, mas um ciclo, feito de pausas, de escolhas, de reencontros.

A realização é simples, mas eficaz — não tenta ser mais do que a história precisa. E a banda sonora é uma delícia, com momentos musicais que refletem a energia e a vulnerabilidade de quem ama pela primeira vez.

O filme fala de amor, sim, mas também de crescimento, perdão e identidade. De aprender a ser fiel a si próprio, mesmo quando o mundo — ou o coração — te empurra noutra direção.

 Há uma ternura em Something Like Summer que perdura.

💙 Dei-lhe 5 estrelas — porque é daqueles filmes que lembram que o amor, em todas as suas formas, é sempre algo digno de ser contado.