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Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Seg | 20.10.25

Livraria Saudade — Uma nova morada para a literatura lusófona em Lisboa

Nelson Pradinhos

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Em pleno mês de setembro, Lisboa ganhou um novo espaço dedicado aos livros — mas não qualquer livraria: a Livraria Saudade abriu discretamente no dia 1 de setembro, e a festa oficial de inauguração decorreu no sábado 20, para celebrar o seu arranque junto à Universidade de Lisboa e da Católica.

O seu fundador, Jaime Mendes, de 63 anos, regressa ao “ofício de livreiro” e à sua terra natal com esta aposta: trazer para Lisboa aquilo que “não se encontra em mais lado nenhum”. Na Saudade, há mais de 11 mil títulos disponíveis, muitos vindos do Brasil — e uma regra curiosa: só se vendem livros que ainda não foram publicados em Portugal.

 

 Origem e Missão:

Jaime viveu no Brasil desde os 9 anos, e trabalhou durante décadas com livros: em 1981 entrou no mundo livreiro quando estudava História no Rio de Janeiro, fundou uma livraria na faculdade e chegou a ter duas na cidade. O regresso a Portugal em 2020 implicou uma viragem: lançar-se como distribuidor de livros brasileiros, até que esse projecto evoluiu para a Saudade, como livraria e distribuidora.

Para Jaime, a Saudade representa um duplo retorno — ao país que o viu nascer e ao ofício original de livreiro. A escolha do nome explica-se: “Saudade existe apenas na nossa língua e simboliza este elo comum”, diz ele.

 

O espaço e a proposta:

Com cerca de 50 m², a livraria foi desenhada para ser mais do que estantes e balcão. Há duas poltronas para se sentar, uma zona infantil com tapetes e uma área preparada para eventos com até 30 cadeiras.

A localização — Rua Melvin Jones 6A — é estratégica: entre a universidade e a cidade, local de passagem e encontro. O edifício pertencia à rede Bisturi de livrarias, o que facilitou o arranque.

 

Nas prateleiras da Saudade:

Apenas um exemplar por título — o que reforça a ideia de raridade e curadoria.

A maior parte dos livros vem do Brasil, mas também se encontram editoras portuguesas e internacionais, como a Companhia das Letras.

A selecção é organizada por secções temáticas — feminismo, antirracismo, temas LGBT — para tornar mais visível o que habitualmente está marginalizado.

 

 Por que este projecto importa:

Num tempo em que as grandes cadeias e centros comerciais dominam o circuito livreiro, as livrarias independentes ganham um papel fundamental. Jaime sublinha:

“As livrarias independentes são cruciais para o mercado. São elas que trazem a diversidade que por vezes não existe nas grandes casas. Essa diversidade é essencial para a sociedade, porque ajuda a transformar visões autoritárias em visões de boa convivência.”

 

Se pensarmos bem, a Saudade faz várias coisas relevantes:

Reinventa o papel da livraria como espaço de encontro, partilha e cultura, e não apenas como ponto de venda.

Aproxima o mundo lusófono — livros do Brasil para Portugal, leitores que falam a mesma língua, culturas que se cruzam.

Abre espaço a obras que normalmente não teriam chegada directa a Portugal — o que enriquece o mercado, a conversa cultural e a leitura plural.

 

Nos primeiros dias…

O arranque foi encorajador: já nas primeiras semanas centenas de pessoas visitaram o espaço. Um dado simbólico: em meados de setembro, um cliente português comprou oito livros sobre música brasileira — para Jaime, “é isto que nos recompensa, perceber que esta curadoria encontra o seu público”.

 

 Considerações finais:

Se ainda não conheces a Livraria Saudade, fica o convite: vai lá, por curiosidade, por leitura, por encontro. Vai pela escolha de livros que fogem ao mainstream, pela ideia de que ler é explorar, cruzar culturas, construir pontes.

E se gostas de literatura brasileira, ou de encontrar títulos raros, ou simplesmente de estar num espaço onde o livro é tratado como algo precioso — este lugar merece uma visita.

Porque mais do que vender livros, a Saudade propõe-se a guardar pela partilha.

E isso — ser guardiã de leituras que não se encontram em mais lado — é, por si só, uma causa que vale prometer apoiar.

Parte do catálogo também está disponível online.

 

Seg | 20.10.25

Um livro português para crianças cegas entre os melhores do mundo em 2025

“Uma Casa é uma Montanha é um Chapéu” conquista selo internacional de excelência

Nelson Pradinhos

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A literatura infantil portuguesa volta a brilhar no plano internacional: o livro ilustrado Uma Casa é uma Montanha é um Chapéu, concebido para ser acessível a crianças cegas ou com baixa visão, foi seleccionado pela Biblioteca Internacional da Juventude (BIJ), sediada em Munique, como uma das melhores obras de literatura para crianças e jovens de 2025.

Mas a distinção portuguesa não fica por aqui: além desta obra, a mesma selecção “White Ravens” inclui ainda dois outros livros com participação portuguesa:

 

As Pessoas São Esquisitas (autor Victor D.O. Santos, ilustrações da portuguesa Catarina Sobral, edição Orfeu Negro) 

(Toda) A Ciência em Três Grandes Perguntas (autor britânico Philip Ball, desenhos do português Bernardo Carvalho, editora Planeta Tangerina) 

 

 O que distingue este livro:

Para a equipa da BIJ, o livro “Uma Casa é uma Montanha é um Chapéu” é considerado um “excecional livro ilustrado” pela forma como conjuga texto — sobre casas, arquitectura, formas — com design acessível e engenharia de papel: ilustrações táteis, relevo, Braille, para que possa ser explorado tanto por crianças que veem como por crianças que não vêem.

A ficha técnica confirma: edição da Trienal de Arquitectura de Lisboa, texto de Filipa Tomaz e Letícia do Carmo, ilustrações de Yara Kono (Planeta Tangerina), e acessibilidade táctil/produção de relevo pela Fátima Alves (Locus Acesso). 

O livro é dirigido a crianças dos 6 aos 10 anos, e explora o conceito de “casa” em múltiplas dimensões — desde a porta, o telhado, até à cidade, o bairro e a paisagem — tudo numa linguística visual e táctil, para que crianças cegas ou com baixa visão descubram o mundo construído de forma inclusiva. 

 

Um selo de visibilidade internacional:

O selo “White Ravens”, atribuído pela BIJ, selecciona anualmente cerca de 200 livros infanto-juvenis de todo o mundo que se destacam por qualidade literária, inovação no design, ou relevância temática. A presença portuguesa entre estes seleccionados indica não só a força criativa local, mas também o impacto da edição inclusiva e o valor de ideias que ultrapassam fronteiras.

 

Reflexão para bibliotecas, famílias e mediadores: 

Esta distinção é um lembrete de que a acessibilidade não é opcional — e que a literatura infantil pode e deve estar ao alcance de todas as crianças, independentemente das capacidades visuais.
Para bibliotecas escolares ou públicas, este livro representa uma excelente adição à coleção: facilita a mediação inclusiva, proporciona experiência sensorial diferenciada e abre debates sobre espaço, forma e acessibilidade.
Para famílias, é um convite a ler com as crianças — explorar o toque, o relevo, o Braille — e a reparar na “casa”, não apenas como abrigo físico, mas como lugar de pertença, imaginação e descoberta.
Para mediadores/educadores, é uma ferramenta que combina literacia visual, arquitectura e inclusão — apontando caminhos para práticas pedagógicas mais abrangentes.

 

 Em resumo:

A selecção internacional deste livro português é motivo de orgulho e um passo significativo para a literatura infanto-juvenil acessível em Portugal.
Mostra que quando se conjuga criatividade, acessibilidade e propósito, os resultados ultrapassam fronteiras — e que ler, sentir e imaginar devem estar ao alcance de todos os miúdos.

 

 

Seg | 20.10.25

Dia Mundial de Combate ao Bullying — Uma data, uma causa permanente

Nelson Pradinhos

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O Dia Mundial de Combate ao Bullying assinala-se oficialmente a 20 de outubro

Mas se há algo que este dia nos lembra é que combater o bullying não pode ficar confinado a um só dia — é uma ação diária, em cada momento da escola, da comunidade, da família.

 

O que é e por que importa:

O bullying define-se como uma forma de violência entre pares, repetida ao longo do tempo, com desequilíbrio de poder — seja ele físico, verbal, psicológico ou mesmo digital (ciberbullying).
Este fenómeno não pertence apenas à “escola” — deixa marcas de longo prazo: no bem-estar emocional, no sentido de pertença e até no sucesso académico ou social.

 

 Por que este dia não é só simbólico

Ajuda a dar visibilidade a algo que muitas vezes se vive em silêncio (alunos que têm medo de falar, pais que desconhecem ou evitam, professores que não têm formação específica).

Promove a mobilização escolar e comunitária: em Portugal, iniciativas como “Escola Sem Bullying – Escola Sem Violência” são lançadas precisamente no dia 20 de Outubro. 

Serve de alerta para pais, educadores e sociedade: que perguntem, estejam atentos aos sinais, promovam empatia, criem ambientes seguros.

E lembra-nos que, embora haja este “dia”, a prevenção e a resposta ao bullying têm de ser contínuas — nas escolas, no recreio, nas redes sociais, em casa.

 

Que papel podem ter os pais, professores e crianças?

Criar espaços de conversa: falar com os filhos/educandos sobre o dia na escola, como se sentiram, se perceberam algo estranho ou viram alguém em dificuldade.

Promover empatia e respeito: reforçar que cada pessoa merece dignidade, e que “silenciar” ou “ver e não fazer nada” também contribui para o problema.

Estabelecer planos claros de intervenção: a escola ou grupo devia ter mecanismos para agir — ouvir, mediar, proteger, apoiar.

Ficar atentos aos sinais: isolamento, mudanças de comportamento, recuo na atitude social, ansiedade, etc. Como a Direção-Geral da Saúde refere, a vigilância precoce contribui para mitigar o impacto.

Valorizar as pequenas vitórias e gestos de inclusão: dizer “vi que tu…” “preciso que…” “posso ajudar…” faz diferença.

 

Sugestões de leitura sobre bullying (infanto-juvenil & adultos):

 

Palavras que Tocam a Alma – Benjamin Ferencz: embora não se refira apenas ao bullying, toca em valores fundamentais de dignidade humana e empatia, úteis para adultos que trabalham ou refletam sobre o tema.

 

O Bullying Termina Aqui! – Marta Curto: um livro em português, direto para crianças/jovens, que trata da temática do bullying de forma compreensível e acessível.

 

Bullying: Guia de Sobrevivência – Aija Mayrock: escrito por uma jovem que foi vítima, um guia direto para quem vive ou suspeita estar a viver bullying.

 

Caderno de Memórias de Difícil Acesso 2: O Ataque dos Bullies: literatura juvenil que aborda o bullying de forma envolvente e narrativa, adaptado para jovens leitores.

 

School Bullying in Different Cultures – Peter K. Smith: estudo académico, para educadores ou interessados em conhecer como o bullying varia consoante contexto cultural.

 

The Bunny & The Bully – Kimberly Glyn: livro infantil em inglês, ideal para ler com crianças mais pequenas — fala de medo, amizade, coragem e inclusão.

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 O Dia Mundial de Combate ao Bullying pode funcionar como um marco simbólico — lembrete público de que precisamos unir forças. Mas a verdadeira viragem acontece todos os dias, em atitudes simples: ouvir uma criança, intervir quando se vê um episódio, ensinar que a diferença não é motivo para exclusão, cultivar o respeito.

Se queremos escolas e comunidades verdadeiramente seguras, cheias de inclusão e empatia, precisamos de transformar o “alerta de outubro” em compromisso de 365 dias.
Hoje, 20 de outubro, lembremo-nos disso. E depois… sigamos amanhã e ao próximo dia, sempre.

 

Seg | 20.10.25

"All Kinds of Love"

Nelson Pradinhos

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All Kinds of Love, realizado por David Lewis (2022), é uma comédia romântica queer que explora o amor – e as suas diferentes formas – entre dois homens com gerações e estilos de vida distintos. 
Max (Matthew Montgomery) é um homem gay de longa data, casado, que se divorcia justamente quando a igualdade matrimonial é reconhecida. Depois, torna-se companheiro de casa involuntário de Conrad (Cody Duke), um programador mais jovem e menos experiente em relações. A convivência dá lugar a descobertas, afetos inesperados e um recomeço emocional.

 

O que me agradou:

1.Gosto da forma como o filme aborda o tema idade versus juventude dentro de um romance gay, sem fugir à vulnerabilidade de ambos os protagonistas. A diferença etária não é apenas detalhe, é motor narrativo.

2.A leveza no tom, com humor e frescura, permite que o filme se sinta mais próximo de uma conversa do que de um drama pesado — o que torna a experiência agradável.

3.A representação de várias formas de amor (“All Kinds of Love”) — não só o romance principal, mas a amizade, a reconciliação, a sexualidade e o recomeço — ajuda a dar amplitude ao tema queer.

 

 O que podia ter sido melhor:

1.O enredo por vezes torna-se previsível, com clichés de rom-com que se aplicam também ao ambiente queer: o “divorciado que encontra novo amor”, o “jovem que ensina o mais velho” etc. Para mim isto reduziu um pouco a frescura que o tema prometia.

2.Algumas falhas de diálogo e performances menos consistentes foram apontadas pelos críticos — por exemplo, a sensação de algum “awkward-ness” ou falta de naturalidade em certas cenas.

3.O tempo de filme (cerca de 75 minutos) torna tudo bastante compacto, o que deixa pouco espaço para aprofundar personagens secundárias ou explorar conflitos mais verdadeiros. 

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Dou ao filme 4 estrelas em 5, porque embora não seja perfeito, entrega aquilo que promete — uma história gay autêntica, com coração, humor e ternura. 

Se estivesse a pedir mais, diria que o filme podia ousar mais — mais conflito, menos previsibilidade, mais profundidade. Mesmo assim, considero-o uma excelente adição ao género de romances queer, especialmente para quem procura algo leve porém com significado.

 

 Recomendado para…

Quem gosta de romances LGBTQ+ que se focam no amor mais tardio, em recomeços.

Leitores/espectadores que apreciam comédias românticas com representatividade, sem pretensões de blockbuster.

Quem quer um filme gay que seja reconfortante, divertido, e ao mesmo tempo tocante.

 

⭐ Classificação: 4 / 5