Livraria Saudade — Uma nova morada para a literatura lusófona em Lisboa

Em pleno mês de setembro, Lisboa ganhou um novo espaço dedicado aos livros — mas não qualquer livraria: a Livraria Saudade abriu discretamente no dia 1 de setembro, e a festa oficial de inauguração decorreu no sábado 20, para celebrar o seu arranque junto à Universidade de Lisboa e da Católica.
O seu fundador, Jaime Mendes, de 63 anos, regressa ao “ofício de livreiro” e à sua terra natal com esta aposta: trazer para Lisboa aquilo que “não se encontra em mais lado nenhum”. Na Saudade, há mais de 11 mil títulos disponíveis, muitos vindos do Brasil — e uma regra curiosa: só se vendem livros que ainda não foram publicados em Portugal.
Origem e Missão:
Jaime viveu no Brasil desde os 9 anos, e trabalhou durante décadas com livros: em 1981 entrou no mundo livreiro quando estudava História no Rio de Janeiro, fundou uma livraria na faculdade e chegou a ter duas na cidade. O regresso a Portugal em 2020 implicou uma viragem: lançar-se como distribuidor de livros brasileiros, até que esse projecto evoluiu para a Saudade, como livraria e distribuidora.
Para Jaime, a Saudade representa um duplo retorno — ao país que o viu nascer e ao ofício original de livreiro. A escolha do nome explica-se: “Saudade existe apenas na nossa língua e simboliza este elo comum”, diz ele.
O espaço e a proposta:
Com cerca de 50 m², a livraria foi desenhada para ser mais do que estantes e balcão. Há duas poltronas para se sentar, uma zona infantil com tapetes e uma área preparada para eventos com até 30 cadeiras.
A localização — Rua Melvin Jones 6A — é estratégica: entre a universidade e a cidade, local de passagem e encontro. O edifício pertencia à rede Bisturi de livrarias, o que facilitou o arranque.
Nas prateleiras da Saudade:
Apenas um exemplar por título — o que reforça a ideia de raridade e curadoria.
A maior parte dos livros vem do Brasil, mas também se encontram editoras portuguesas e internacionais, como a Companhia das Letras.
A selecção é organizada por secções temáticas — feminismo, antirracismo, temas LGBT — para tornar mais visível o que habitualmente está marginalizado.
Por que este projecto importa:
Num tempo em que as grandes cadeias e centros comerciais dominam o circuito livreiro, as livrarias independentes ganham um papel fundamental. Jaime sublinha:
“As livrarias independentes são cruciais para o mercado. São elas que trazem a diversidade que por vezes não existe nas grandes casas. Essa diversidade é essencial para a sociedade, porque ajuda a transformar visões autoritárias em visões de boa convivência.”
Se pensarmos bem, a Saudade faz várias coisas relevantes:
Reinventa o papel da livraria como espaço de encontro, partilha e cultura, e não apenas como ponto de venda.
Aproxima o mundo lusófono — livros do Brasil para Portugal, leitores que falam a mesma língua, culturas que se cruzam.
Abre espaço a obras que normalmente não teriam chegada directa a Portugal — o que enriquece o mercado, a conversa cultural e a leitura plural.
Nos primeiros dias…
O arranque foi encorajador: já nas primeiras semanas centenas de pessoas visitaram o espaço. Um dado simbólico: em meados de setembro, um cliente português comprou oito livros sobre música brasileira — para Jaime, “é isto que nos recompensa, perceber que esta curadoria encontra o seu público”.
Considerações finais:
Se ainda não conheces a Livraria Saudade, fica o convite: vai lá, por curiosidade, por leitura, por encontro. Vai pela escolha de livros que fogem ao mainstream, pela ideia de que ler é explorar, cruzar culturas, construir pontes.
E se gostas de literatura brasileira, ou de encontrar títulos raros, ou simplesmente de estar num espaço onde o livro é tratado como algo precioso — este lugar merece uma visita.
Porque mais do que vender livros, a Saudade propõe-se a guardar pela partilha.
E isso — ser guardiã de leituras que não se encontram em mais lado — é, por si só, uma causa que vale prometer apoiar.

Parte do catálogo também está disponível online.


