“O Outono que Espirrava Folhas: O Segredo das Bolachas Mágicas”
Capítulo 2 – "A Caça às Bolachas de Abóbora"

O Outono ainda tentava perceber se estava a sonhar.
Tinha acabado de conhecer um rapaz zombie simpático, com um sapato de cada cor, o cabelo despenteado cheio de folhas, a pele verde clarinha como relva molhada e uns pingos de lama que brilhavam como pintas de chocolate.
O seu sorriso era torto, mas tão bem-disposto que parecia um raio de sol perdido num dia nublado.
O Outono tentou cumprimentar Samuel…, mas o seu nariz começou a formigar.
— Atchimm! — E lá foi mais um vendaval de folhas douradas.
— Cuidado! — gritou Samuel, a rir-se. — Se continuares assim, o bosque vai pensar que é hora de hibernar!
O Outono riu-se, já sem tanta vergonha.
— É mais forte do que eu. Acho que o ar do outono me faz cócegas por dentro!
Samuel coçou a cabeça e bocejou.
— Sabes, espirrar folhas deve dar uma fome danada.
— Um bocadinho…, mas eu costumo lanchar bolachas de vento e batido de cheiro de maçã assada.
Samuel fez uma careta.
— Isso não enche barriga nenhuma! — disse, cruzando os braços. — O que tu precisas é de bolachas de abóbora!
— Bolachas de quê? — perguntou o Outono, franzindo o nariz.
— De abóbora! — exclamou Samuel. — As bolachas mais deliciosas do mundo! Comi-as uma vez, no Halloween do ano passado, e nunca mais as encontrei. Tinham um sabor mágico, doce e quentinho, como um abraço.
O Outono ficou de olhos muito abertos.
— Nunca provei uma coisa dessas.
— Então é o que vamos fazer hoje! — decidiu Samuel. — Vamos encontrá-las antes do Halloween chegar!
E lá foram os dois — um rapaz de vento e folhas, e um zombie curioso — a caminhar pelo Bosque Douramel à procura das bolachas perdidas.
Enquanto caminhavam, o Outono pensava como era estranho: antes escondia os seus espirros, agora eles pareciam abrir caminhos — o vento guiava-os sempre para algum lugar novo.
O Bosque Douramel parecia saído de um sonho dourado.
As árvores vestiam-se de cores quentes — laranja, cobre e mel — e o chão estava coberto de folhas e ramos que estalavam alegremente a cada passo.
O ar cheirava a canela, maçã assada e um leve toque de abóbora.
Um vento doce brincava entre os galhos, fazendo as folhas rodopiarem como pequenas bailarinas.
O Outono fungou.
— Cheira a algo doce!
— Isso é um bom sinal — respondeu Samuel. — As bolachas de abóbora deixam sempre um rasto de cheiro mágico.
De repente, ouviram um grasnar rouco vindo do alto de uma árvore.
— Graaak! Vocês aí em baixo, parem de farejar o chão como esquilos!
Os dois olharam para cima.
Num ramo alto, estava um corvo preto de olhos brilhantes e uma pequena pena branca no peito.
— Sou o Baltazar! — disse o corvo, com ar importante. — E vocês parecem perdidos.
— Não estamos perdidos — respondeu Samuel. — Estamos à caça das bolachas de abóbora mágicas!
O corvo inclinou a cabeça, interessado.
— Ah, essas bolachas... — disse, com voz arrastada. — Já não as vejo desde o último Halloween.
Dizem que aparecem apenas quando o bosque desperta para a festa dos espíritos.
O Outono sentiu o nariz a formigar, e antes que pudesse dizer alguma coisa…
— Atchimm! — Um turbilhão de folhas douradas subiu no ar, fazendo o corvo dar um salto e bater as asas, ofendido.
— Cuidado com esses espirros, rapaz do vento! — grasnou Baltazar. — Espirros desses mexem com a magia antiga do bosque!
O Outono ficou corado, tentando conter o riso.
— Desculpe… eu não consigo evitar.
— Hmpf! — fez o corvo, ajeitando as penas. — Pois talvez seja exatamente isso que o bosque precisa: um pequeno empurrão de vento.
Baltazar pousou num galho mais baixo e continuou:
— Se quiserem encontrar o que procuram, sigam o trilho das folhas cor-de-mel e escutem bem — a música do vento guiará o vosso caminho.
O corvo riu — o seu riso soava como o bater de asas ao amanhecer.
— Sigam o trilho e talvez encontrem o sabor que procuram… ou algo ainda mais mágico.
Antes que pudessem perguntar mais, Baltazar levantou voo, deixando para trás uma pena branca que flutuou suavemente até cair na mão do Outono.
O rapaz olhou-a com espanto e guardou-a no bolso do seu casaco de vento.
— Folhas cor-de-mel, música do vento… parece um bom começo.
— E se vierem bolachas no fim, melhor ainda! — disse Samuel, esfregando as mãos.
Os dois riram-se, sem imaginar que o rasto das folhas os levaria a uma noite diferente de todas as outras.
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Com carinho,
Nelson Pradinhos
