Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Qua | 22.10.25

“O Outono que Espirrava Folhas: O Segredo das Bolachas Mágicas”

Capítulo 2 – "A Caça às Bolachas de Abóbora"

Nelson Pradinhos

1.png

O Outono ainda tentava perceber se estava a sonhar.
Tinha acabado de conhecer um rapaz zombie simpático, com um sapato de cada cor, o cabelo despenteado cheio de folhas, a pele verde clarinha como relva molhada e uns pingos de lama que brilhavam como pintas de chocolate.
O seu sorriso era torto, mas tão bem-disposto que parecia um raio de sol perdido num dia nublado.
O Outono tentou cumprimentar Samuel…, mas o seu nariz começou a formigar.
— Atchimm! — E lá foi mais um vendaval de folhas douradas.
— Cuidado! — gritou Samuel, a rir-se. — Se continuares assim, o bosque vai pensar que é hora de hibernar!
O Outono riu-se, já sem tanta vergonha.
— É mais forte do que eu. Acho que o ar do outono me faz cócegas por dentro!
Samuel coçou a cabeça e bocejou.
— Sabes, espirrar folhas deve dar uma fome danada.
— Um bocadinho…, mas eu costumo lanchar bolachas de vento e batido de cheiro de maçã assada.
Samuel fez uma careta.
— Isso não enche barriga nenhuma! — disse, cruzando os braços. — O que tu precisas é de bolachas de abóbora!
— Bolachas de quê? — perguntou o Outono, franzindo o nariz.
— De abóbora! — exclamou Samuel. — As bolachas mais deliciosas do mundo! Comi-as uma vez, no Halloween do ano passado, e nunca mais as encontrei. Tinham um sabor mágico, doce e quentinho, como um abraço.
O Outono ficou de olhos muito abertos.
— Nunca provei uma coisa dessas.
— Então é o que vamos fazer hoje! — decidiu Samuel. — Vamos encontrá-las antes do Halloween chegar!

 

E lá foram os dois — um rapaz de vento e folhas, e um zombie curioso — a caminhar pelo Bosque Douramel à procura das bolachas perdidas.
Enquanto caminhavam, o Outono pensava como era estranho: antes escondia os seus espirros, agora eles pareciam abrir caminhos — o vento guiava-os sempre para algum lugar novo.


O Bosque Douramel parecia saído de um sonho dourado.
As árvores vestiam-se de cores quentes — laranja, cobre e mel — e o chão estava coberto de folhas e ramos que estalavam alegremente a cada passo.
O ar cheirava a canela, maçã assada e um leve toque de abóbora.
Um vento doce brincava entre os galhos, fazendo as folhas rodopiarem como pequenas bailarinas.
O Outono fungou.
— Cheira a algo doce!
— Isso é um bom sinal — respondeu Samuel. — As bolachas de abóbora deixam sempre um rasto de cheiro mágico.
De repente, ouviram um grasnar rouco vindo do alto de uma árvore.
— Graaak! Vocês aí em baixo, parem de farejar o chão como esquilos!
Os dois olharam para cima.
Num ramo alto, estava um corvo preto de olhos brilhantes e uma pequena pena branca no peito.
— Sou o Baltazar! — disse o corvo, com ar importante. — E vocês parecem perdidos.
— Não estamos perdidos — respondeu Samuel. — Estamos à caça das bolachas de abóbora mágicas!
O corvo inclinou a cabeça, interessado.
— Ah, essas bolachas... — disse, com voz arrastada. — Já não as vejo desde o último Halloween.
Dizem que aparecem apenas quando o bosque desperta para a festa dos espíritos.
O Outono sentiu o nariz a formigar, e antes que pudesse dizer alguma coisa…
— Atchimm! — Um turbilhão de folhas douradas subiu no ar, fazendo o corvo dar um salto e bater as asas, ofendido.
— Cuidado com esses espirros, rapaz do vento! — grasnou Baltazar. — Espirros desses mexem com a magia antiga do bosque!
O Outono ficou corado, tentando conter o riso.
— Desculpe… eu não consigo evitar.
— Hmpf! — fez o corvo, ajeitando as penas. — Pois talvez seja exatamente isso que o bosque precisa: um pequeno empurrão de vento.
Baltazar pousou num galho mais baixo e continuou:
— Se quiserem encontrar o que procuram, sigam o trilho das folhas cor-de-mel e escutem bem — a música do vento guiará o vosso caminho.
O corvo riu — o seu riso soava como o bater de asas ao amanhecer.
— Sigam o trilho e talvez encontrem o sabor que procuram… ou algo ainda mais mágico.
Antes que pudessem perguntar mais, Baltazar levantou voo, deixando para trás uma pena branca que flutuou suavemente até cair na mão do Outono.
O rapaz olhou-a com espanto e guardou-a no bolso do seu casaco de vento.
— Folhas cor-de-mel, música do vento… parece um bom começo.
— E se vierem bolachas no fim, melhor ainda! — disse Samuel, esfregando as mãos.

 

Os dois riram-se, sem imaginar que o rasto das folhas os levaria a uma noite diferente de todas as outras.

:::

Convido-te a ler, sentir e partilhar a tua opinião nos comentários:
✨ O que mais te encantou?
🍪 Qual foi a tua parte favorita?
💭 E o que mudarias, se fosses tu a soprar o vento desta história?

As tuas palavras ajudam esta aventura a crescer — como folhas novas a nascer no coração do bosque.
Obrigada por caminhares comigo nesta estação de magia e imaginação.

Com carinho,
Nelson Pradinhos

 

Qua | 22.10.25

"Liuben"

Nelson Pradinhos

MV5BOWIyYjc5MTAtMjIyMS00OTc1LWE1M2YtNzQyMTk5ZGViOD

Liuben, do realizador Venci Kostov, é o primeiro longa-metragem da Bulgária com temática abertamente LGBTQIA+. 
O enredo acompanha Victor (27 anos), que vive em Madrid e regressa à sua vila natal na Bulgária para o funeral do avô. Ao prolongar a estadia, reencontra-se com o ambiente de infância, o pai, memórias e, inesperadamente, aproxima-se de Liuben (18 anos), jovem de origem cigana, orfão, marginalizado. A relação que se desenha entre eles une dois mundos muito diferentes — classe, etnia, identidade, pertença.

 

O que me agradou:

A coragem de abordar, no contexto de uma comunidade rural búlgara, temas como discriminação étnica (Cigana), pertença, identidade sexual e desigualdade social. Liuben mostra que o amor queer também se vive nos cantos mais invisíveis, longe dos centros urbanos.

A ambientação e o contraste entre Madrid (o mundo “conhecido” de Victor) e a vila na Bulgária — permite sentir o deslocamento, a diferença de oportunidades, a tensão entre o que somos e de onde vimos. Isso enriquece o drama e a empatia.

As performances principais têm momentos de grande verdade: Liuben como figura de desejo e vulnerabilidade, Victor como alguém dividido entre o passado e o presente — geram juntas tensão e ternura.

 

O que me deixou com reservas:

Em alguns momentos, o filme parece querer abarcar demasiados temas (classe, etnia, identidade, cidade vs campo, amor proibido) e isso dilui um pouco o focar-se mais profundo nas motivações de certos personagens.

A narrativa não sempre encerra de forma completamente satisfatória: há ambiguidade nos sentimentos, e quem procura desenlaces claros pode sentir que falta algo.

Algumas transições de ritmo ou de cena parecem mais abruptas — o que pode tirar ligeiramente a imersão.

 

Minha avaliação final:

Dou 4 estrelas porque Liuben é um filme significativo, com voz própria, que nos confronta e nos sensibiliza. Porém, não atinge o “excelente” por sentir que poderia aprofundar mais algumas relações ou consequências. Mesmo assim, é uma excelente adição ao cinema queer contemporâneo — especialmente relevante para quem procura histórias que vão além da cidade, além do óbvio, e rompem silêncios.

 

Para quem recomendo:

Quem aprecia romances LGBTQIA+ que se passam em contextos de diferença social e étnica.

Leitores/espectadores interessados em cinema independente e narrativas fora das grandes metrópoles.

Quem procura um filme que, mesmo tendo melancolia, oferece humanidade, questionamento e beleza visual.

 

⭐ Classificação: 4 / 5