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Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Seg | 27.10.25

"No Final, Morrem os Dois" de Adam Silvera

Nelson Pradinhos

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Antes de mais, o quão assustador seria receber uma chamada a dizer que íamos morrer no espaço de 24 horas?
Essa é a premissa sombria e fascinante de No Final, Morrem os Dois, de Adam Silvera — um livro que, mesmo partindo da certeza da morte, celebra a vida de uma forma profundamente comovente.

A narrativa é simples, fluida e viciante, mas contrasta com o peso constante de sabermos que Mateo e Rufus estão a viver as suas últimas horas. É impossível ler sem sentir o nó na garganta — cada gesto, cada palavra e cada olhar ganha um significado maior.
Acompanhamos os dois jovens enquanto tentam resolver o que ficou por dizer, por fazer e, acima de tudo, aprender a viver verdadeiramente, ainda que por um breve instante.

Apesar da atmosfera melancólica, o livro é surpreendentemente doce, terno e humano.
Há amor, amizade, vulnerabilidade e uma urgência em ser — em sentir, em existir. Silvera cria uma história que não é apenas sobre a morte, mas sobre o que significa estar vivo com intenção.

E se fossemos nós?
O que nos faltava concluir?
Podemos olhar para trás e dizer: “aproveitei cada segundo da minha vida”?
O livro deixa-nos a pensar nestas perguntas muito depois da última página.

 

Um livro que me marcou — duas vezes

Foi o primeiro livro que li de Adam Silvera, quando foi lançado pela TOP Seller, e desde então fiquei completamente apaixonado pela sua escrita — delicada, sincera e emocional.
O exemplar foi-me oferecido pelo meu noivo no Natal, o que o tornou ainda mais especial.

Este mês, voltei a relê-lo, agora na nova edição da Secret Society, e o impacto foi o mesmo — ou talvez ainda maior. Adam Silvera tem esse dom raro de escrever histórias sobre dor e perda que, paradoxalmente, nos enchem de amor e esperança.

 

No final, é sobre o que escolhemos viver

No Final, Morrem os Dois é uma leitura que nos lembra que não precisamos de saber quando vamos morrer para começar a viver.
É um livro sobre coragem, amor e o poder de uma conexão genuína, mesmo quando o tempo se esgota.
Um romance trágico, sim — mas também uma celebração da vida e da beleza de cada instante.

Um livro perfeito, tocante e inesquecível.

 

🏠 Edição: Secret Society (2025) / TOP Seller (edição anterior)

Avaliação: 5/5

 

Seg | 27.10.25

“O Outono que Espirrava Folhas: O Segredo das Bolachas Mágicas”

Capítulo 4: “O Guardião do Bosque”

Nelson Pradinhos

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O silêncio voltou ao Bosque Douramel depois da dança dos fantasmas.
O Outono e o Samuel ficaram algum tempo a olhar para as luzes que brilhavam no chão — pequenas como estrelas, delicadas como promessas.
— Acho que foi o Halloween a ensaiar a sua primeira dança — dissera Samuel.
E o Outono ainda sorria ao lembrar-se dessa frase, tão bonita e estranha ao mesmo tempo.
O vento começou a soprar de novo, suave e quente, e as folhas formaram um trilho dourado que se perdia entre as árvores.
— As folhas cor-de-mel! — exclamou o Outono. — O corvo Baltazar falou disto! É o caminho!
Samuel esfregou as mãos, animado.
— E no fim desse caminho, aposto que estão as bolachas mágicas de abóbora!

E lá foram os dois, lado a lado, rindo e tropeçando nas raízes, enquanto o bosque se tornava mais denso e o ar cheirava cada vez mais a canela e mel.

De repente, ouviram um som suave — um ronronar grave e ritmado, como um tambor que ecoava entre as árvores.
Do meio da neblina, surgiram dois olhos dourados, brilhantes como luas pequenas.
Os dois pararam, atentos.
De entre as sombras, apareceu um gato majestoso, de pelo bicolor — escuro e arroxeado, com manchas claras que pareciam brilhar sob a luz do luar.
Andava com passo elegante, a cauda erguida, e os olhos observavam-nos com curiosidade e sabedoria.
— Quem és tu? — perguntou o Outono, com voz hesitante.
O gato parou diante deles e respondeu com voz firme, mas serena:
— Sou Falco, guardião do bosque e mensageiro entre o mundo dos vivos e o dos sonhos.
O Outono sentiu um arrepio percorrer-lhe o casaco de vento.
- Eu sou…
- O Outono, - disse o gato.
— Tu… tu sabes o meu nome? — murmurou, maravilhado.
Falco ronronou.
— Sei mais do que isso. Sei que és o rapaz que espalha o outono com espirros. O bosque adora o teu perfume de vento. Cada Atchimm! teu faz as árvores dançar.
O Outono corou.
— Eu… eu só espirro.
— Só? — Falco arqueou uma sobrancelha felina. — Chamas-lhe “só” a dar cor ao mundo?
Samuel interrompeu, espantado:
— Um gato falante… e com ar de quem sabe mais do que todos nós juntos!
Falco esticou o pescoço, ajeitou o bigode e respondeu, divertido:
— Eu sei o suficiente para nunca correr atrás da própria cauda. Já é meio caminho para ser sábio, não achas?
O gato esticou as patas, bocejou com elegância e completou:
— O Bosque Douramel é como eu — bonito, cheio de segredos e com cheiro irresistível a bolachas que ninguém consegue encontrar!
Samuel riu-se.
— Então viemos ao sítio certo!
— Talvez… — respondeu Falco, com um olhar brilhante. — Mas as bolachas mágicas não aparecem a qualquer um.
O Outono deu um passo à frente, curioso.
— Mas nós viemos de longe! Seguimos o trilho das folhas cor-de-mel, dançámos com fantasmas e até levámos com chuva de folhas no nariz!
— E ainda não comemos nada! — acrescentou Samuel, com ar dramático.
Falco sorriu, como quem se diverte com dois alunos traquinas.
— Então talvez mereçam uma pista.
O gato levantou a cauda e o ar à volta pareceu brilhar.
De repente, as folhas começaram a mover-se sozinhas, formando desenhos no chão: uma abóbora, uma estrela e uma colher de pau.
— O que é isto? — perguntou o Outono.
— Uma receita perdida — murmurou Falco. — A das Bolachas de Abóbora Mágicas.
Samuel deu um salto.
— Sabes a receita?!
Falco piscou o olho.
— Saber, sei…, mas não a posso dar assim, de mão beijada. A magia dessas bolachas não está nos ingredientes — está em quem as prepara.
O vento soprou mais forte e as folhas começaram a rodopiar.
O gato olhou o horizonte, onde o luar começava a iluminar o bosque.
— Há muito tempo, duas bruxas — Hilda Maldita e Laurinha — criaram essas bolachas para celebrar a amizade.
Cada abóbora usava uma pitada de riso, uma folha de coragem e uma lasca de luar.
O Outono ouviu, encantado.
— Que bonito…
— E delicioso! — completou Samuel, já a salivar.
Falco continuou:
— Mas este bosque não pertence ao mesmo mundo de onde vieram essas bruxas. Aqui, o tempo corre de outro modo — o passado e o presente andam de mãos dadas, e até o vento guarda lembranças.

Samuel cruzou os braços.
— Parece que temos trabalho a fazer.
— Trabalho? — resmungou o zombie. — Pensei que fosse só comer!
Falco soltou um ronronar divertido.
— Oh, meu caro Samuel… até as melhores bolachas precisam de um pouco de esforço. O sabor só é mágico quando se mistura com aventura!
O gato levantou a cauda e piscou o olho.
— Sigam-me, pequenos caçadores de bolachas.
Conheço um lugar onde o tempo tirou uma soneca e o cheiro a canela nunca foi embora.
Samuel ergueu uma sobrancelha.
— E lá há bolachas?
— Talvez — respondeu o gato, ronronando. — Ou talvez só o eco do riso das bruxas que as fizeram.
— Como se chama esse lugar? — perguntou o Outono.
— O Forno da Meia-Lua. Lá, dizem que as histórias doces nunca se apagam.
Samuel sorriu de orelha a orelha.
— Histórias doces? Isso soa delicioso!
O gato caminhou à frente, com passos silenciosos e elegantes, enquanto o luar penetrava pelas copas douradas.
O Outono e Samuel seguiram-no, rindo e tropeçando nas raízes, com o vento a soprar melodias que cheiravam a canela e aventura.
A cada passo, o Bosque Douramel parecia despertar — as folhas sussurravam segredos, as sombras dançavam nas árvores e, ao longe, uma luz suave piscava como um convite.
O Outono respirou fundo. O ar parecia mais leve, e o seu nariz… curioso, mas calmo.
Talvez, pela primeira vez, o vento estivesse em paz dentro dele.
Enquanto desapareciam entre as árvores, o bosque parecia sorrir…
e um aroma doce espalhou-se no ar.
Cheirava a abóbora, a magia e a algo prestes a acontecer.

 

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Convido-te a ler, sentir e partilhar a tua opinião nos comentários:
✨ O que mais te encantou?
🍪 Qual foi a tua parte favorita?
💭 E o que mudarias, se fosses tu a soprar o vento desta história?

As tuas palavras ajudam esta aventura a crescer — como folhas novas a nascer no coração do bosque.
Obrigada por caminhares comigo nesta estação de magia e imaginação.

Com carinho,
Nelson Pradinhos

 

Seg | 27.10.25

"Let’s Eat Together, Aki and Haru" e "Let’s Eat Together, Aki and Haru: More Please!"

Nelson Pradinhos

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Let’s Eat Together, Aki and Haru é um filme delicado, cheio de ternura e significado, que transforma o quotidiano em algo extraordinário.

 

Comida, afeto e o poder dos pequenos momentos:

Neste primeiro filme, acompanhamos Aki e Haru, dois jovens com personalidades muito diferentes, mas que encontram na comida um ponto de encontro e de afeto.
A cada refeição, as barreiras vão caindo e o que começa por ser uma relação simples e discreta transforma-se numa amizade — e, aos poucos, em algo mais.

Há algo de profundamente reconfortante em ver como a partilha de um prato quente pode simbolizar tanto: cuidado, amor e presença.
O filme é visualmente bonito, com uma fotografia suave, cores quentes e uma atmosfera acolhedora que nos faz sentir em casa.

 

4,5 estrelas em 5

 

Porque é impossível não sorrir ao ver Aki e Haru a encontrarem o seu próprio ritmo, entre risos, silêncios e receitas improvisadas.

 

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A continuação, Let’s Eat Together, Aki and Haru: More Please!, é tudo aquilo que o título promete — mais emoção, mais química, mais doçura e ainda mais coração.

Aqui, Aki e Haru já estão mais próximos, e a história aprofunda o que começou no primeiro filme.
Não é apenas sobre partilhar refeições — é sobre partilhar a vida, o tempo e as pequenas rotinas que constroem o amor.

Os momentos entre eles são simples, mas cheios de significado: cozinhar juntos, rir de algo sem importância, olhar o outro como quem encontra um lar.
A relação cresce de forma orgânica, honesta e muito humana.

É uma daquelas histórias em que o amor não precisa de ser gritado — ele é sentido em cada gesto, em cada prato colocado na mesa, em cada “fica mais um bocadinho”.

 

5 estrelas em 5


Porque é impossível não se apaixonar por esta continuação, que consegue ser ainda mais terna, calorosa e bonita do que o primeiro filme.

 

Um par perfeito e uma história que alimenta a alma

Juntos, os dois filmes criam uma narrativa suave e profunda sobre afeto, intimidade e partilha.
É sobre amor, mas também sobre cuidado e conforto, sobre encontrar o outro e, ao mesmo tempo, encontrar-se a si próprio.

No fim, fica uma sensação boa — como depois de uma refeição feita com amor.
É reconfortante, leve e deixa-nos com vontade de mais.

Tal como o título diz: More, please! 💛

 

Seg | 27.10.25

"Esteros"

Nelson Pradinhos

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Esteros é um delicado drama argentino-brasileiro-francês realizado por Papu Curotto, que narra a história de dois amigos de infância — Matías e Jerónimo — que, na adolescência, partilham uma ligação intensa, silenciosa e cheia de desejo, antes de serem forçados a separar-se. Anos depois, já adultos, reencontram-se e encaram o que ficou por dizer, o que foi evitado e o que ainda pode florescer. 

 

Os pontos fortes:

Ambiente e estética – A ambientação rural argentina (na zona dos Esteros do Iberá) confere ao filme uma beleza calma e contemplativa, que se torna parte essencial da narrativa. A natureza aqui quase representa o inconsciente dos protagonistas.

Química entre atores e representação da amizade/amor – A relação entre Matías e Jerónimo é construída com subtileza, evitando o excesso de dramatização e valorizando os olhares, os silêncios, o ambiente partilhado. O intérprete de Jerónimo, Esteban Masturini, destaca-se por uma presença natural que evita estereótipos LGBTQI+. 

Temas reais e sensíveis – O filme aborda de modo adulto e sensível a homofobia interiorizada, a separação por circunstâncias, o retorno ao passado e a reconciliação com aquilo que se evitou. 

Ritmo contemplativo – Para quem aprecia um filme que respira, com vindas e voltas temporais, olhares prolongados e menos diálogos explícitos, Esteros entrega esse ritmo com elegância.

 

A que prestar atenção / reservas:

O enredo não foge muito aos clássicos da temática “amigos que se amam, se separam, voltam a encontrar-se”. Alguns momentos soam previsíveis.

O ritmo lento pode não agradar a todos: se procura ação, viragens rápidas ou drama super-intenso, talvez sinta que falta algo.

Certas conveniências narrativas aparecem, especialmente no “momento de clímax” ou na mudança de vida dos protagonistas. 

 

Por que dei 4 estrelas?

Porque Esteros é uma obra sensível e bonita, que merece ser vista — sobretudo dentro do panorama de cinema LGBTQI+ que valoriza histórias humanas e interiores mais do que grandes extravagâncias.

As 4 estrelas refletem que, apesar de não ser perfeita ou revolucionária, o filme cumpre aquilo que se propõe com alma, elegância e coerência.

Vale pela autenticidade, pela paisagem emocional que pinta e pela forma como leva o espectador a reflectir sobre o tempo, o amor, o que ficou por dizer.

 

Conclusão:

Se procura um filme que seja mais “sentido” do que “barulhento”, que valorize olhares e silêncios, e que trate de uma história gay com honestidade e coração — este é um título a não deixar de lado.
Esteros reserva-se para quem aprecia o quase-silêncio, o quase-beijo, o quase-acontecer — e encontra-se aí a beleza.

 

⭐ Classificação: 4 / 5