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O silêncio voltou ao Bosque Douramel depois da dança dos fantasmas.
O Outono e o Samuel ficaram algum tempo a olhar para as luzes que brilhavam no chão — pequenas como estrelas, delicadas como promessas.
— Acho que foi o Halloween a ensaiar a sua primeira dança — dissera Samuel.
E o Outono ainda sorria ao lembrar-se dessa frase, tão bonita e estranha ao mesmo tempo.
O vento começou a soprar de novo, suave e quente, e as folhas formaram um trilho dourado que se perdia entre as árvores.
— As folhas cor-de-mel! — exclamou o Outono. — O corvo Baltazar falou disto! É o caminho!
Samuel esfregou as mãos, animado.
— E no fim desse caminho, aposto que estão as bolachas mágicas de abóbora!
E lá foram os dois, lado a lado, rindo e tropeçando nas raízes, enquanto o bosque se tornava mais denso e o ar cheirava cada vez mais a canela e mel.
De repente, ouviram um som suave — um ronronar grave e ritmado, como um tambor que ecoava entre as árvores.
Do meio da neblina, surgiram dois olhos dourados, brilhantes como luas pequenas.
Os dois pararam, atentos.
De entre as sombras, apareceu um gato majestoso, de pelo bicolor — escuro e arroxeado, com manchas claras que pareciam brilhar sob a luz do luar.
Andava com passo elegante, a cauda erguida, e os olhos observavam-nos com curiosidade e sabedoria.
— Quem és tu? — perguntou o Outono, com voz hesitante.
O gato parou diante deles e respondeu com voz firme, mas serena:
— Sou Falco, guardião do bosque e mensageiro entre o mundo dos vivos e o dos sonhos.
O Outono sentiu um arrepio percorrer-lhe o casaco de vento.
- Eu sou…
- O Outono, - disse o gato.
— Tu… tu sabes o meu nome? — murmurou, maravilhado.
Falco ronronou.
— Sei mais do que isso. Sei que és o rapaz que espalha o outono com espirros. O bosque adora o teu perfume de vento. Cada Atchimm! teu faz as árvores dançar.
O Outono corou.
— Eu… eu só espirro.
— Só? — Falco arqueou uma sobrancelha felina. — Chamas-lhe “só” a dar cor ao mundo?
Samuel interrompeu, espantado:
— Um gato falante… e com ar de quem sabe mais do que todos nós juntos!
Falco esticou o pescoço, ajeitou o bigode e respondeu, divertido:
— Eu sei o suficiente para nunca correr atrás da própria cauda. Já é meio caminho para ser sábio, não achas?
O gato esticou as patas, bocejou com elegância e completou:
— O Bosque Douramel é como eu — bonito, cheio de segredos e com cheiro irresistível a bolachas que ninguém consegue encontrar!
Samuel riu-se.
— Então viemos ao sítio certo!
— Talvez… — respondeu Falco, com um olhar brilhante. — Mas as bolachas mágicas não aparecem a qualquer um.
O Outono deu um passo à frente, curioso.
— Mas nós viemos de longe! Seguimos o trilho das folhas cor-de-mel, dançámos com fantasmas e até levámos com chuva de folhas no nariz!
— E ainda não comemos nada! — acrescentou Samuel, com ar dramático.
Falco sorriu, como quem se diverte com dois alunos traquinas.
— Então talvez mereçam uma pista.
O gato levantou a cauda e o ar à volta pareceu brilhar.
De repente, as folhas começaram a mover-se sozinhas, formando desenhos no chão: uma abóbora, uma estrela e uma colher de pau.
— O que é isto? — perguntou o Outono.
— Uma receita perdida — murmurou Falco. — A das Bolachas de Abóbora Mágicas.
Samuel deu um salto.
— Sabes a receita?!
Falco piscou o olho.
— Saber, sei…, mas não a posso dar assim, de mão beijada. A magia dessas bolachas não está nos ingredientes — está em quem as prepara.
O vento soprou mais forte e as folhas começaram a rodopiar.
O gato olhou o horizonte, onde o luar começava a iluminar o bosque.
— Há muito tempo, duas bruxas — Hilda Maldita e Laurinha — criaram essas bolachas para celebrar a amizade.
Cada abóbora usava uma pitada de riso, uma folha de coragem e uma lasca de luar.
O Outono ouviu, encantado.
— Que bonito…
— E delicioso! — completou Samuel, já a salivar.
Falco continuou:
— Mas este bosque não pertence ao mesmo mundo de onde vieram essas bruxas. Aqui, o tempo corre de outro modo — o passado e o presente andam de mãos dadas, e até o vento guarda lembranças.
Samuel cruzou os braços.
— Parece que temos trabalho a fazer.
— Trabalho? — resmungou o zombie. — Pensei que fosse só comer!
Falco soltou um ronronar divertido.
— Oh, meu caro Samuel… até as melhores bolachas precisam de um pouco de esforço. O sabor só é mágico quando se mistura com aventura!
O gato levantou a cauda e piscou o olho.
— Sigam-me, pequenos caçadores de bolachas.
Conheço um lugar onde o tempo tirou uma soneca e o cheiro a canela nunca foi embora.
Samuel ergueu uma sobrancelha.
— E lá há bolachas?
— Talvez — respondeu o gato, ronronando. — Ou talvez só o eco do riso das bruxas que as fizeram.
— Como se chama esse lugar? — perguntou o Outono.
— O Forno da Meia-Lua. Lá, dizem que as histórias doces nunca se apagam.
Samuel sorriu de orelha a orelha.
— Histórias doces? Isso soa delicioso!
O gato caminhou à frente, com passos silenciosos e elegantes, enquanto o luar penetrava pelas copas douradas.
O Outono e Samuel seguiram-no, rindo e tropeçando nas raízes, com o vento a soprar melodias que cheiravam a canela e aventura.
A cada passo, o Bosque Douramel parecia despertar — as folhas sussurravam segredos, as sombras dançavam nas árvores e, ao longe, uma luz suave piscava como um convite.
O Outono respirou fundo. O ar parecia mais leve, e o seu nariz… curioso, mas calmo.
Talvez, pela primeira vez, o vento estivesse em paz dentro dele.
Enquanto desapareciam entre as árvores, o bosque parecia sorrir…
e um aroma doce espalhou-se no ar.
Cheirava a abóbora, a magia e a algo prestes a acontecer.
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Obrigada por caminhares comigo nesta estação de magia e imaginação.
Com carinho,
Nelson Pradinhos