"Onde as Peras Caem" de Nana Ekvtimishvili

Onde as Peras Caem, de Nana Ekvtimishvili, é uma obra intensa, dura e necessária, que nos confronta com uma realidade invisível: a das crianças esquecidas, abandonadas pela família e pela sociedade, que crescem à margem, em instituições frias e desumanas na Geórgia pós-soviética.
Ler este livro foi um desafio — não apenas pela escrita densa, mas pela carga emocional que carrega.
A autora apresenta-nos um grupo de crianças e jovens que vivem numa instituição “especial”, algumas com deficiência mental, outras apenas rejeitadas por não se encaixarem no mundo.
Não conhecemos todas profundamente, mas seguimos de perto algumas delas — e o modo como, entre a dor e o esquecimento, encontram estratégias para sobreviver e proteger-se.
A dureza e a ternura entrelaçadas
Não é uma leitura fácil.
Ekvtimishvili não embeleza a realidade. Mostra-nos a crueldade, o abuso, a negligência e a falta de afeto que marcam aquelas vidas frágeis.
E, no entanto, há uma beleza silenciosa no meio de tanta dor — nas pequenas alianças entre as crianças, nos gestos de cuidado, na amizade que nasce como forma de resistência.
Essas “crianças especiais” tornam-se família umas das outras.
Ajudam-se, protegem-se e encontram formas de preservar um pouco de humanidade num espaço que, tantas vezes, parece desprovido dela.
É nesse contraste — entre a brutalidade do mundo e a força do afeto — que o livro mais brilha.
Uma escrita que fere e acaricia
O estilo de Nana Ekvtimishvili é direto, sensível e cheio de observações finas.
A autora não se limita a denunciar; ela escuta as vozes das crianças, dá-lhes corpo e dignidade.
Há uma poética discreta nas suas palavras, que transforma o que poderia ser apenas dor em algo profundamente humano.
Ler este livro foi difícil, sim — mas foi também um exercício de empatia e de consciência.
É uma história que deixa marcas, que nos obriga a olhar para o que é invisível e a questionar o que significa realmente cuidar, amar e proteger.
Conclusão
Onde as Peras Caem é um livro duro e necessário, que nos mostra a fragilidade e a força que coexistem em cada ser humano.
Não é uma leitura leve, mas é uma leitura que importa.
Mostra-nos a resiliência, a amizade e a vontade de viver, mesmo quando o mundo parece ter desistido.
⭐ Classificação: 4 / 5
Um livro que parte o coração, mas que também o faz bater com mais consciência e compaixão.







