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Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Ter | 11.11.25

"No Brasil Não Há Leões" de Álvaro Curia

Nelson Pradinhos

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"No Brasil Não Há Leões", de Álvaro Curia, é uma obra que se entranha profundamente, com uma beleza silenciosa e uma dor que ecoa muito depois da última página.

Este é um romance sobre o trauma, o abandono e o preconceito, mas também sobre a possibilidade de salvação através do amor — e, neste caso, o amor de um cão. Um amor puro, sem julgamentos, que oferece o consolo e o abrigo que muitas vezes faltam entre os humanos.

A história acompanha uma criança “diferente”, vítima de rejeição, que carrega as feridas da infância até à vida adulta. Álvaro Curia conduz-nos por este percurso com uma escrita firme, poética e profundamente sensível, revelando a força de quem escreve a partir da empatia e da verdade emocional.

“O preconceito, o abandono, o trauma e a crueldade ignorada por quem devia cuidar — tudo isto está aqui. Mas também está o carinho, o amparo e a luz que apenas um animal pode oferecer a quem o mundo esqueceu.”

O final é um dos pontos altos da narrativa — ambíguo, inesperado, e aberto a várias interpretações. É daqueles desfechos que nos obrigam a voltar atrás, a reler certos trechos, à procura dos sinais que talvez tenhamos ignorado.

Apesar de abordar temas duros, No Brasil Não Há Leões não se rende ao dramatismo. O autor prefere o silêncio às lágrimas, a sugestão à explicação, e dessa contenção nasce a sua grande força literária.

É uma leitura que fala sobre o crescimento a partir da dor, sobre o poder das memórias e sobre o que acontece quando a vida nos obriga a reinventar o amor e o lar.

Um livro visceral e comovente, que nos faz olhar para dentro e repensar a forma como tratamos o outro — e os que não têm voz.
Uma história sobre coragem, cura e humanidade.

 

⭐ Classificação: 5 / 5

 

Ter | 11.11.25

"Quando Vires um Gato Branco" de Saki Murayama

Nelson Pradinhos

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"Quando Vires um Gato Branco", trata-se de uma narrativa delicada e contemplativa, passada num grande centro comercial japonês onde quatro personagens — Isana, Sakiko, Kengo e Ichika — vivem entre sonhos, rotinas e desejos por cumprir.

Todos trabalham no mesmo espaço, cada um no seu pequeno universo, e todos carregam uma esperança comum: a de um dia encontrar o mítico gato branco de olhos diferentes — um azul e outro dourado — que, segundo a lenda urbana, traz sorte e cumpre os desejos de quem o avista.

A autora apresenta-nos personagens humanas e imperfeitas, que vivem entre o real e o sonho, entre o que foi perdido e o que ainda pode ser recuperado. Há quem espere reencontrar um amor antigo, quem anseie por reconciliação familiar, quem deseje apenas uma segunda oportunidade para ser feliz.

O gato branco, quase invisível, funciona como símbolo da fé silenciosa que nos mantém em movimento — esse acreditar em algo que talvez nunca se concretize, mas que dá sentido aos nossos dias.

A escrita de Saki Murayama é poética e serena, com descrições que evocam o quotidiano japonês de forma intimista, quase cinematográfica. É uma leitura que pede pausa, chá quente e contemplação.

No entanto, confesso que senti falta de maior profundidade emocional em alguns momentos. A história é bonita, mas avança com um ritmo lento, e nem sempre consegui ligar-me de forma intensa às personagens. Ainda assim, há uma doçura no modo como a autora fala sobre esperança, solidão e pequenos milagres que valem o caminho.

É uma leitura tranquila, ideal para quem gosta de histórias com um toque de melancolia e espiritualidade japonesa.

 

⭐ Classificação: 3 / 5

 

Ter | 11.11.25

“Flesh”, do escritor anglo-húngaro David Szalay, vence Prémio Booker 2025

Nelson Pradinhos

“Flesh”, do escritor anglo-húngaro David Szalay, vence Prémio Booker 2025

O prestigiado Prémio Booker 2025 foi atribuído ao romance “Flesh”, do escritor anglo-húngaro David Szalay, numa cerimónia realizada em Londres. A obra, descrita pelo júri como “contida mas intensa”, foi destacada pela sua escrita poderosa e pela profundidade emocional com que explora os temas do desejo, da solidão e do poder.

 

 Um romance sobre o corpo, o poder e a passagem do tempo:

Em Flesh, acompanhamos István, um jovem húngaro de 15 anos que vive com a mãe num modesto complexo de apartamentos. Tímido e reservado, tem dificuldade em adaptar-se à nova escola e acaba por se isolar — até que uma vizinha casada se torna a sua única companhia.

A relação clandestina entre ambos desencadeia uma série de acontecimentos que o levam, ao longo das décadas, de uma juventude solitária à elite financeira de Londres, passando por experiências no exército e pela turbulência das ambições modernas.

O romance acompanha o protagonista desde a adolescência até à velhice, revelando como os desejos humanos — amor, intimidade, riqueza, estatuto — podem ser, ao mesmo tempo, motores de ascensão e forças destrutivas.

 

 A coragem de arriscar na escrita:

Durante o seu discurso, David Szalay reconheceu que “Flesh foi um livro arriscado” — não apenas pelo título provocador, mas também pela forma como expõe a vulnerabilidade humana sem filtros.

“É muito importante correr riscos, sobretudo na ficção. Não foi um livro fácil de escrever”, afirmou o autor, lembrando que começou este projeto após abandonar outro manuscrito.

O escritor irlandês Roddy Doyle, presidente do júri — e ele próprio um vencedor anterior do Booker —, sublinhou a singularidade da obra:

“Nunca tínhamos lido nada parecido. É, em muitos aspetos, um livro sombrio, mas é um prazer lê-lo.”

 

Os outros finalistas:

A edição de 2025 contou com uma lista de seis finalistas, todos elogiados pela crítica internacional:

Flashlight, de Susan Choi 

Audition, de Katie Kitamura 

The Rest of our Lives, de Ben Markovits 

The Loneliness of Sonia and Sunny, de Kiran Desai 

The Land in Winter, de Andrew Miller 

Apesar de ainda não estar editado em Portugal, David Szalay já é conhecido dos leitores portugueses com os títulos “Tudo o que um homem é” (2018) e “Turbulência” (2019), ambos publicados pela Elsinore.

 

O peso do Booker Prize

Criado em 1969, o Prémio Booker é um dos galardões literários mais importantes do mundo anglófono, atribuído anualmente ao melhor romance escrito em inglês e publicado no Reino Unido ou na Irlanda. O vencedor recebe 50 mil libras (cerca de 57 mil euros) — e, mais do que isso, uma projeção internacional imediata.

Com Flesh, David Szalay junta-se a uma lista de autores notáveis que já conquistaram o prémio, como Margaret Atwood, Salman Rushdie, Hilary Mantel e Kazuo Ishiguro.

 

 Uma vitória que reafirma o poder da literatura contemporânea

A vitória de Flesh reflete uma tendência da literatura contemporânea: obras que exploram o corpo, o desejo e a passagem do tempo como metáforas para a condição humana.

Mesmo sendo um romance descrito como “sombrio”, Flesh oferece um espelho honesto das contradições da vida moderna — a busca incessante por amor e poder, e a inevitável vulnerabilidade que nos torna humanos.

David Szalay confirma-se, assim, como uma das vozes mais consistentes e ousadas da ficção europeia atual.

 

Ter | 11.11.25

Literatura juvenil e mangá dominam preferências dos jovens no programa Cheque-Livro

Nelson Pradinhos

Literatura juvenil e mangá dominaram preferências dos jovens no programa cheque-livro

A primeira edição do programa Cheque-Livro chegou ao fim e trouxe um retrato revelador dos gostos literários da nova geração de leitores portugueses. Segundo dados divulgados pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), os jovens mostraram uma clara preferência por literatura juvenil e mangá japonês, géneros que continuam a conquistar corações e a inspirar novos hábitos de leitura.

Entre novembro de 2024 e julho de 2025, o programa permitiu que jovens nascidos em 2005 e 2006 utilizassem um vale de 20 euros para comprar livros em livrarias físicas. No total, foram emitidos 47.651 cheques-livro, representando cerca de 21,6% dos 220 mil jovens elegíveis, e cerca de 82% desses vales foram utilizados — um sinal de crescente interesse, apesar das limitações logísticas.

 

O que os jovens estão a ler?

A análise da DGLAB revela uma grande diversidade de escolhas, mas com destaque especial para:

Literatura juvenil (com forte presença de autoras portuguesas como Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada),

Mangá, especialmente títulos como Tokyo Ghoul,

Fantasia e romance,

Livros de desenvolvimento pessoal.

 

Curiosamente, alguns dos títulos mais comprados — como O Principezinho e as coleções As Gémeas de Enid Blyton — são obras recomendadas para idades mais baixas, mostrando que muitos jovens ainda sentem uma ligação afetiva à literatura da infância.

 

 Leitura e identidade:

A predominância da literatura juvenil e do mangá não é apenas uma tendência estética: é também uma forma de expressão identitária.
O mangá, em particular, tem vindo a ganhar espaço entre leitores adolescentes e jovens adultos, por abordar temas como amizade, superação, solidão e identidade, muitas vezes de forma visualmente envolvente e emocional.

A leitura torna-se, assim, uma ferramenta de autodescoberta e pertença — um refúgio num mundo cada vez mais digital e acelerado.

 

O papel das raparigas e das livrarias:

Segundo o relatório, as raparigas representaram 64% dos cheques emitidos e 65% dos utilizados, reforçando uma tendência já conhecida: as mulheres continuam a ser as maiores leitoras em Portugal.

Em termos geográficos, a maior parte dos vales foi usada em Lisboa e Porto, seguidas de Braga, Setúbal, Leiria e Coimbra, com 94% das utilizações em grandes cadeias livreiras — um dado que levanta a necessidade de apoiar livrarias independentes e regionais, especialmente nas zonas com menos acesso.

 

 Um programa a melhorar — mas com futuro

Apesar de algumas falhas técnicas e da desigualdade no acesso às livrarias aderentes, a DGLAB faz um balanço positivo: o programa incentivou a compra de livros físicos e a frequência de livrarias, objetivos centrais desta iniciativa.

A ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, já anunciou que a segunda edição do Cheque-Livro será lançada em janeiro de 2026, com um aumento do valor de 20 para 30 euros — um passo em frente, ainda que abaixo dos 100 euros propostos pela APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros).

 

 Leitura em Portugal: um retrato em mudança:

De acordo com um estudo da APEL e da consultora GfK, 76% dos portugueses leram pelo menos um livro em 2024, mas apenas 58% o compraram.
A média de leitura caiu ligeiramente para 5,3 livros por pessoa, mas há boas notícias: o maior crescimento do hábito de leitura foi observado entre os jovens dos 15 aos 24 anos — precisamente o público-alvo do programa.

 

Conclusão: 

O balanço é claro: a nova geração lê, sonha e procura histórias que a representem.
Quer seja através das páginas ilustradas de um mangá ou das aventuras de um romance juvenil, os jovens portugueses continuam a encontrar nos livros um espaço de imaginação, emoção e liberdade.

E se o futuro da leitura passa pelas novas gerações, o Cheque-Livro — mesmo com as suas imperfeições — é um passo fundamental para garantir que os livros continuam a ser portas abertas para o mundo.