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Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Ter | 18.11.25

"Os Gatos de Shinjuku" de Durian Sukegawa

Nelson Pradinhos

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Durian Sukegawa tem o dom raro de transformar aquilo que é pequeno, discreto e aparentemente banal em momentos de ternura e contemplação. Depois de Doce Tóquio, voltei ao seu universo literário — e, mais uma vez, encontrei um autor que escreve com a sensibilidade de quem observa o mundo através de um vidro ligeiramente embaciado, onde cada detalhe é um convite à introspeção.

Os Gatos de Shinjuku é um livro curto, mas cheio de atmosfera. Um passeio sereno pelas ruas de Tóquio, guiado pela presença silenciosa e simbólica dos gatos que habitam o bairro de Shinjuku. Através de episódios quase fragmentados, acompanhamos vidas diferentes — algumas à deriva, outras em busca de sentido — que se cruzam, se tocam e se afastam, como sombras a passar sob luzes de néon.

Sukegawa volta a fazer aquilo que faz tão bem:
tornar visível o que costuma passar despercebido.

 

🐈 Os gatos como metáfora — liberdade, solidão, pertença

Os gatos aqui não são apenas animais: são ecos de memórias, guardiões silenciosos, presenças que observam mais do que interferem.
Representam a liberdade de quem não pertence a lado nenhum… e, ao mesmo tempo, a solidão de quem vagueia sem destino.

À medida que seguimos estas pequenas criaturas, cruzamo-nos com pessoas que carregam as suas próprias feridas:

trabalhadores exaustos,

idosos que vivem esquecidos,

jovens que procuram um lugar onde encaixar,

pessoas que vivem dentro da cidade, mas à margem dela.

 

Tudo isto é narrado com a calma e a poesia contida que marcam a escrita do autor.

 

Shinjuku como personagem

Shinjuku não é apenas cenário.
É personagem viva — caótica, luminosa, barulhenta, mas também cheia de recantos onde o silêncio mora.

O contraste entre o movimento frenético da cidade e a paz dos gatos torna o livro ainda mais interessante.
Sukegawa mostra um Japão menos turístico, menos idealizado e mais humano, mais real, mais ferido — mas ainda assim belo.

 

 Um livro sobre encontros breves e marcas profundas

Apesar de ser uma leitura leve no ritmo, Os Gatos de Shinjuku carrega temas fortes:

a solidão urbana,

a busca por pertença,

a memória dos lugares,

a compaixão que nasce dos gestos pequenos.

É um daqueles livros que não precisa de grandes enredos para tocar o leitor.
A mensagem chega devagar, como um gato que se aproxima sem fazer ruído.

 

Conclusão — uma leitura doce, melancólica e muito humana

Dei 4 estrelas porque, apesar de breve, é um livro com alma: delicado, observador e silenciosamente poderoso.
Não atinge a força emocional de Doce Tóquio, mas oferece algo igualmente valioso:
um olhar terno sobre a forma como coexistimos — humanos e animais — numa cidade que nunca dorme.

É uma leitura perfeita para quem aprecia histórias poéticas, atmosféricas e cheias de pequenos significados.
E para quem acredita que, às vezes, basta seguir um gato para descobrir algo sobre nós mesmos.

 

⭐ Classificação: 4 / 5

 

Ter | 18.11.25

"Doce Tóquio" de Durian Sukegawa

Nelson Pradinhos

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Há livros que se abrem devagar, como flores de sakura, libertando beleza, silêncio e ternura a cada página. “Doce Tóquio”, de Durian Sukegawa, é um desses raros livros. Tão simples na superfície, tão profundo na alma.

Este romance, escrito no estilo japonês ao qual tenho vindo a habituar-me — delicado, pausado e cheio de significado — parte de uma pergunta essencial:
O que faz de nós humanos?
As relações que construímos? O papel que desempenhamos?
Ou a forma como sentimos o simples facto de estar vivo?

Sukegawa responde de forma tão subtil quanto devastadora:
somos humanos porque sentimos. Porque tocamos o mundo — e porque deixamos que o mundo nos toque.

 

Sentarō e Tokue: um encontro que muda destinos

A relação entre Sentarō e Tokue começa como um acaso numa rua de Tóquio… mas rapidamente se revela um encontro transformador.

Ele, um homem carregado de culpa, preso ao passado e à rotina.
Ela, uma mulher cuja vida inteira está marcada pela doença de Hansen, mas que guarda nas mãos um gesto perfeito:
mexer o feijão azuki com a paciência e a delicadeza de quem compreende que tudo na vida precisa de tempo para chegar ao seu auge.

Tokue não faz apenas an (pasta de feijão).
Tokue faz memórias.
Faz cura.
Faz silêncio que abraça.

E Sukegawa escreve como ela cozinha:
simples por fora, profundamente poético por dentro.

 

🌸 Mono no aware: a beleza do que passa

Há um conceito japonês que paira sobre toda a narrativa:
mono no aware, a consciência de que tudo é transitório — e de que precisamente aí reside a beleza.

Enquanto lia, sentia-me numa pequena loja de dorayaki, com o aroma doce a envolver a minha memória.
(A propósito: adoro dorayaki! E sim, Doraemon ajudou muito à fama destes bolinhos…)

A interação de Tokue com os clientes é luminosa, e é assim que surge Wakana, uma adolescente marcada pela solidão. A ligação entre ambas é intergeracional — como se Tokue lhe desse, nas pausas da cozinha, não apenas doces, mas também afeto, paciência e o tipo de atenção que Wakana não encontra em casa.

 

As sombras que o Japão ainda tenta esconder

Sukegawa também nos lembra que o Japão é lindo, sim — mas como todas as culturas, tem cicatrizes profundas.
E uma delas é a discriminação histórica contra pessoas com a doença de Hansen.

Mesmo depois da cura.
Mesmo depois da ciência.
Mesmo depois do tempo.

A forma como o livro retrata esta realidade é particularmente tocante. Não acusa, não grita — murmura.
E esse murmúrio é impossível de ignorar.

 

 Trechos que ficam — e que nos fazem pensar

“Comecei a compreender que nascemos para ver e escutar o mundo.
E é a única coisa que este mundo quer de nós.
A minha vida teve significado.”

“O mundo que essa criança sente existe por causa dela e, por conseguinte, a sua vida também tem um objetivo e um significado.”

“Fazia coisas doces para todas as pessoas que viviam com a tristeza da perda.
E foi assim que consegui dar um sentido à minha vida.”

São citações que nos prendem a respiração.
E que nos lembram: o simples também pode ser imenso.

 

🍂 Para terminar… um último pedaço de doçura

“Doce Tóquio” é daqueles livros que nos deixam com a mesma sensação do último pedaço de um doce muito especial:
sabemos que vai acabar, mas, enquanto dura, queremos que o sabor nunca se perca.

É uma história sobre humanidade, dor, cuidado, memória e beleza.
Sobre o valor do tempo, dos laços, do que fica mesmo quando tudo parece partir.

Um livro que não se lê apenas — sente-se.
E permanece.

 

⭐ Classificação: 5 / 5