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Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Qua | 31.12.25

Feliz Ano Novo, 2026 ✨

Nelson Pradinhos

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Chegamos ao fim de mais um ano — feito de páginas lidas, histórias escritas, músicas sentidas e momentos que ficaram guardados no coração.

2025 trouxe desafios, aprendizagens e muitas emoções. Trouxe livros que nos abraçaram, palavras que nos salvaram em dias difíceis e sonhos que, mesmo em silêncio, continuaram a crescer. Cada leitura, cada escrita, cada partilha aqui no blog foi também uma forma de resistência e de amor.

Que 2026 seja um ano de mais tempo para ler devagar, de mais coragem para sentir fundo e de mais espaço para criar. Que venham novas histórias, novas músicas, novos encontros e novos começos — mesmo que discretos, mesmo que imperfeitos.

Desejo que este novo ano traga leveza, saúde, inspiração e pequenos milagres quotidianos. Que nunca nos falte a capacidade de imaginar outros mundos e, sobretudo, de tornar este um pouco mais bonito.

Obrigada por estarem desse lado, por lerem, por sentirem comigo e por continuarem a caminhar onde o mar encontra as palavras.

Feliz Ano Novo, 2026. Que seja gentil connosco. 

 

Nelson Pradinhos

 

Qua | 31.12.25

Netflix cancela Olympo após uma temporada e reacende debate sobre séries LGBT+

Nelson Pradinhos

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A Netflix voltou a cancelar uma produção com temática LGBT+. A série Olympo, que estreou recentemente no catálogo da plataforma, não foi renovada para uma segunda temporada, encerrando a sua narrativa após apenas um ano. A decisão apanhou muitos espectadores de surpresa e frustrou quem esperava ver um maior desenvolvimento das personagens e dos seus arcos emocionais.

O cancelamento de Olympo volta a levantar críticas recorrentes à estratégia da Netflix em relação a séries com protagonismo ou narrativas centradas em personagens LGBT+. Ao longo dos últimos anos, várias produções com recortes queer foram interrompidas prematuramente, muitas vezes antes de conseguirem consolidar audiência, aprofundar histórias ou alcançar o reconhecimento que apenas o tempo permite.

Nas redes sociais, fãs da série manifestaram desilusão com o fim precoce, apontando a falta de investimento contínuo em narrativas diversas e a dificuldade destas produções sobreviverem num modelo que privilegia resultados imediatos. Muitos espectadores sublinham que séries com personagens LGBT+ acabam frequentemente por não receber a mesma margem de crescimento concedida a produções mais convencionais.

Até ao momento, a Netflix não divulgou informações oficiais sobre os critérios que levaram ao cancelamento de Olympo. A ausência de explicações claras apenas reforça a perceção de fragilidade no compromisso da plataforma com a diversidade a longo prazo.

Com este desfecho, Olympo junta-se à lista de séries LGBT+ descontinuadas precocemente, reacendendo o debate sobre representatividade, responsabilidade e permanência dessas histórias no streaming. Num contexto em que a visibilidade e a diversidade continuam a ser fundamentais, a repetição deste padrão levanta uma questão inevitável: até que ponto existe, de facto, um compromisso sustentado com estas narrativas — e não apenas uma aposta momentânea?

 

Ter | 30.12.25

IndieJúnior Porto celebra 10 anos e transforma a cidade numa festa de cinema

Nelson Pradinhos

Marika Herz

 

O IndieJúnior Porto celebra 10 anos em 2026 e assinala a data transformando a cidade numa verdadeira festa de cinema, encontros e descobertas. Entre 26 de janeiro e 2 de fevereiro, o festival regressa com mais de 50 sessões e atividades, espalhadas por vários espaços emblemáticos do Porto, reafirmando-se como um dos projetos culturais mais importantes dedicados ao público jovem e às famílias.

Nascido da vontade de aproximar os mais novos do cinema independente, o IndieJúnior Porto foi, desde o início, muito mais do que um festival infantil. Criado como uma extensão natural do IndieLisboa, tornou-se rapidamente um espaço de encontro intergeracional, onde crianças, jovens e adultos podem descobrir filmes de diferentes países, estilos e sensibilidades — sempre com tempo, cuidado e curiosidade. Dez anos depois, o festival cresceu, conquistou um público fiel e assumiu um papel central na formação de novos olhares sobre o cinema.

A 10.ª edição assume-se como uma verdadeira celebração. A palavra de ordem é alegria: a alegria de estarmos juntos, de partilharmos histórias e de continuarmos a olhar o mundo através do cinema. Durante uma semana, o festival ocupa espaços como o Batalha – Centro de Cinema, a Biblioteca Municipal Almeida Garrett, o Coliseu Porto Ageas, a Sala Estúdio Perpétuo, o Planetário do Porto e a Reitoria da Universidade do Porto, criando um percurso cultural vivo pela cidade.

O arranque acontece a 26 de janeiro, no Batalha, com uma sessão especial que marca oficialmente o início desta edição comemorativa. Um dos momentos mais aguardados chega a 31 de janeiro, com a sessão “O Meu Primeiro Filme”, apresentada por Jorge Prendas, músico dos Vozes da Rádio, que escolheu revisitar Grease (1978), o primeiro filme que viu no cinema sem os pais, num exercício de memória, partilha e emoção.

No sábado, 1 de fevereiro, o festival promete um dos momentos mais doces da programação com “Adoro Bolos”, uma sessão de curtas-metragens acompanhada por uma atuação especial do Coro Infantil da Universidade do Porto. A celebração continua fora da sala de cinema, com uma pista de dança aberta no Bar High Life, ao som de Miss Playmobil, num ambiente descontraído e festivo.

Entre os destaques já confirmados estão ainda o regresso do Cinema de Colo, uma experiência sensorial pensada para bebés, que volta a ocupar a sala Novo Ático do Coliseu, e a sessão “Pudim Cósmico”, no Planetário do Porto — um filme sobre o cosmos criado inteiramente com comida. A programação inclui também sessões temáticas como Curtas da Chéquia, em colaboração com o histórico Zlín Film Festival, e Curtas Mães e Pais, dedicada ao público adulto e à reflexão sobre parentalidade.

Durante os dias úteis, o IndieJúnior Porto recebe sobretudo público escolar, mantendo-se aberto a famílias. Aos fins de semana, o ritmo torna-se mais festivo, com propostas pensadas para todas as idades. Os bilhetes variam entre 5€ e 6,30€, consoante a sessão e o local.

A programação completa será revelada no início de janeiro, mas uma coisa é certa: ao celebrar dez anos, o IndieJúnior Porto afirma-se como um festival onde o cinema é pretexto para criar laços, partilhar descobertas e começar o ano com alegria em grande plano.

 

Ter | 30.12.25

Ilustradora Catarina Sobral premiada em concurso sul-coreano de livro ilustrado

Nelson Pradinhos

Ilustradora Catarina Sobral premiada em concurso sul-coreano de livro ilustrado

A ilustradora portuguesa Catarina Sobral volta a levar o nome de Portugal além-fronteiras ao ser distinguida no Nami Concours 2026, um dos mais prestigiados concursos internacionais de livro ilustrado, realizado na ilha de Nami, na Coreia do Sul.

Catarina Sobral foi premiada com o “Purple Island”, um dos quatro galardões atribuídos, pelo trabalho visual do livro As pessoas são esquisitas, escrito por Victor D. O. Santos e editado em Portugal pela Orfeu Negro. A obra propõe um olhar curioso e sensível sobre o mundo dos adultos, observado a partir da perspetiva de uma criança que se encanta — e estranha — os modos de vestir, agir e existir das pessoas à sua volta.




Criado no âmbito do Nambook Festival, o Nami Concours distingue desde 2013 ilustradores de todo o mundo pelo seu contributo artístico no campo do álbum ilustrado. O reconhecimento agora atribuído reforça o percurso internacional do livro, cujos direitos já foram vendidos para vários idiomas, incluindo o coreano, e que foi também selecionado pela Biblioteca Internacional da Juventude como uma das melhores obras de literatura para crianças e jovens de 2025.

Este não é, no entanto, um feito isolado na carreira da ilustradora. Catarina Sobral já tinha sido distinguida no mesmo concurso em 2017, com o prémio “Green Island”, pelo livro A sereia e os gigantes. Ao longo dos anos, o Nami Concours tem vindo a reconhecer também outros nomes portugueses, como André Letria (2019) e Yara Kono (2017), confirmando a forte presença da ilustração portuguesa no panorama internacional.

Considerada uma das autoras mais premiadas do livro ilustrado português, Catarina Sobral conta com cerca de duas dezenas de obras publicadas em Portugal e no estrangeiro, entre as quais se destacam Achimpa, Vazio, Impossível, Toi Toi Toi e O meu avô, livro que lhe valeu, em 2014, o Prémio Internacional de Ilustração da Feira do Livro Infantil de Bolonha. Mais recentemente, em 2024, venceu o Prémio Nacional de Ilustração com Fantasmas, Bananas e Avestruzes.

Nascida em Coimbra, em 1985, Catarina Sobral desenvolve também trabalho nas áreas do teatro para a infância e do cinema de animação, mantendo uma abordagem artística multifacetada e profundamente ligada à imaginação e ao pensamento crítico das crianças.

O Nambook Festival e o Nami Concours realizam-se na ilha de Nami, um conhecido destino cultural e turístico da Coreia do Sul, especialmente dedicado ao público infantil. Recorde-se que Portugal foi o país convidado do festival em 2021, no âmbito das comemorações dos 60 anos de relações diplomáticas entre Portugal e a Coreia do Sul — um sinal claro da relevância e do reconhecimento internacional da criação artística portuguesa.

Este novo prémio vem, assim, reafirmar a importância da ilustração nacional no mundo e celebrar uma obra que nos lembra, com delicadeza e humor, que ser humano é, afinal, também ser um pouco esquisito.

 

Ter | 30.12.25

"Afterglow - Um Futuro Brilhante", Phil Stamper

Nelson Pradinhos

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Afterglow – Um Futuro Brilhante, de Phil Stamper, é o segundo e último livro da duologia iniciada com Golden Boys e acompanha os quatro amigos — Gabriel, Reese, Sal, Heath e Holden — num momento decisivo das suas vidas: o último ano do secundário e tudo o que isso implica.

Se Golden Boys era sinónimo de verão, descoberta e liberdade, Afterglow traz um tom mais maduro e melancólico. Aqui, a diversão dá lugar às decisões difíceis, às inseguranças sobre o futuro e ao medo de crescer e deixar para trás aquilo que nos define.

Phil Stamper continua a escrever com uma sensibilidade enorme, explorando temas como identidade, amizade, primeiros amores, expectativas familiares e a pressão de escolher um caminho quando ainda nos estamos a descobrir. Cada personagem enfrenta os seus próprios conflitos — alguns mais interessantes do que outros — mas o grande ponto forte do livro continua a ser a dinâmica do grupo e a forma como o apoio entre eles permanece, mesmo quando a vida começa a puxá-los para direções diferentes.

Apesar de manter o coração quente e a representatividade que já conhecíamos, Afterglow não tem o mesmo impacto emocional do primeiro livro. A narrativa é mais calma, por vezes previsível, e nem todos os arcos têm o mesmo peso ou profundidade. Ainda assim, é um encerramento honesto e carinhoso para esta história, respeitando as personagens e o percurso que fizeram até aqui.

É um livro sobre despedidas suaves, sobre aceitar que nem tudo precisa de ser definitivo para ser significativo, e sobre perceber que crescer também é aprender a lidar com a mudança.

Um final doce e realista para uma duologia YA cheia de coração, amizade e esperança no futuro.

 

⭐ Classificação: 4 / 5

 

Ter | 30.12.25

"Golden Boys", Phil Stamper

Nelson Pradinhos

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Golden Boys é tudo aquilo que esperamos de um bom YA contemporâneo — e ainda um pouco mais. Um livro luminoso, honesto e profundamente humano, que celebra a amizade, o crescimento e a descoberta de quem somos.

A história acompanha quatro rapazes muito diferentes entre si, cada um com a sua voz, os seus medos e os seus sonhos. O grande mérito de Phil Stamper está precisamente nesta multiplicidade de perspetivas: cada capítulo acrescenta uma nova camada à narrativa, mantendo a leitura envolvente do início ao fim. Nunca nos cansamos, porque cada personagem traz algo único para a história.

Apesar das diferenças, há algo que os une de forma poderosa: a amizade. É bonito — e reconfortante — ver como cada um deles precisa de se afastar, de se perder um pouco, para se encontrar. E ainda mais bonito é perceber que, depois desse percurso individual, existe sempre um lugar seguro ao qual regressar: o grupo, o apoio mútuo, o sentimento de pertença.

Golden Boys fala sobre identidade, expectativas, pressão social, amor, medo e coragem, mas fá-lo com sensibilidade e empatia. É um livro que não julga as personagens, antes lhes dá espaço para errar, crescer e aprender. E isso torna tudo mais real.

Este é daqueles livros que aquecem o coração e nos fazem sorrir em silêncio ao fechar a última página. Um YA essencial, especialmente pela forma natural e positiva como aborda a representatividade LGBTQ+, sem que isso seja o único foco, mas sim parte integrante da vida destas personagens.

Uma leitura absolutamente recomendada — para jovens, para adultos, e para todos os que acreditam no poder das histórias sobre amizade e autodescoberta. 💛

 

⭐ Classificação: 5 / 5

 

Ter | 30.12.25

"Love in the Big City ( 대도시의 사랑법)"

Nelson Pradinhos

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Love in the Big City foi um filme sensível, honesto e profundamente humano, que fala sobre amor, amizade, identidade e a solidão que pode existir mesmo no meio da multidão.

 

A história

O filme acompanha Jae-hee e Heung-soo, duas almas que se encontram numa grande cidade — não por acaso, mas por necessidade. Ambos vivem à margem das expectativas sociais: Jae-hee é uma mulher livre, frontal e constantemente julgada pelas suas escolhas; Heung-soo é um homem gay que ainda vive à sombra do medo, da repressão e da necessidade de se esconder.

O que começa como uma convivência improvável transforma-se numa relação profunda, feita de cumplicidade, apoio e crescimento mútuo. Juntos, eles partilham casas, segredos, noites longas, desilusões amorosas e pequenas vitórias do dia a dia. O filme não se centra apenas no romance, mas naquilo que muitas vezes é ainda mais transformador: uma amizade que nos salva.

 

Porque é tão especial?

Love in the Big City destaca-se pela sua delicadeza emocional. Não dramatiza em excesso, não romantiza a dor, mas também não a esconde. Mostra como crescer, amar e sobreviver numa grande cidade pode ser exaustivo — especialmente quando se é diferente.

A forma como aborda temas como:

identidade queer

expectativas sociais

solidão urbana

amor não-romântico

liberdade e autenticidade

é feita com uma naturalidade comovente. Tudo parece real, vivido, próximo.

As interpretações são absolutamente brilhantes, com uma química genuína entre os protagonistas, que faz acreditar em cada silêncio, em cada discussão e em cada gesto de carinho.

 

Um filme que abraça

Este é um filme que não grita, mas sussurra verdades importantes. Que nos lembra que nem todos os amores seguem o mesmo molde, e que algumas das relações mais importantes da nossa vida não cabem numa definição simples.

Ri, emocionei-me, reconheci-me em vários momentos — e terminei o filme com aquela sensação rara de ter visto algo verdadeiro.

Love in the Big City é um retrato sensível e necessário sobre amar, existir e encontrar casa nas pessoas certas, mesmo quando o mundo à volta parece grande demais.

Um filme absolutamente maravilhoso. 💛

 

⭐ Classificação: 5 / 5

 

Ter | 30.12.25

Séries que vi nas últimas semanas de dezembro

Nelson Pradinhos

Dezembro foi um mês especialmente generoso no que toca a séries BL. Entre histórias mais delicadas, romances intensos e narrativas que ficam connosco muito depois do último episódio, terminei o ano a ver várias produções que merecem ser destacadas — umas mais do que outras.

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⭐⭐⭐ Mystique in the Mirror

Esta foi, talvez, a série mais irregular do grupo. Mystique in the Mirror tem uma premissa interessante e uma estética cuidada, mas acaba por não aprofundar tanto quanto poderia as suas personagens e emoções. Há momentos bonitos e simbólicos, mas a narrativa perde-se em alguns episódios, deixando uma sensação de potencial desaproveitado. Ainda assim, é uma experiência curiosa para quem gosta de histórias mais contemplativas.

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⭐⭐⭐⭐ Heart Stain

Uma agradável surpresa. Heart Stain constrói um romance sensível, marcado por emoções contidas, silêncios significativos e olhares que dizem mais do que palavras. A série cresce episódio após episódio e conquista pela honestidade emocional. Não é perfeita, mas tem coração — e isso sente-se.

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⭐⭐⭐⭐⭐ Kieta Hatsukoi TH

Simplesmente encantadora. Esta adaptação tailandesa conseguiu manter o espírito doce e genuíno da história original, apostando numa leveza que faz bem à alma. É uma série sobre primeiros amores, confusões adoráveis e sentimentos sinceros. Terminei com um sorriso no rosto e o coração quentinho.

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⭐⭐⭐⭐⭐ That Summer

Uma história delicada, nostálgica e profundamente emocional. That Summer fala de tempo, de memórias e de amores que nos marcam para sempre. É uma série silenciosa, mas intensa, que nos envolve devagar e deixa marcas subtis. Daquelas que se sente mais do que se explica.

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⭐⭐⭐⭐⭐ Happy Ending Romance

O nome não engana. Esta série é conforto puro. Uma narrativa madura, sensível e muito bem equilibrada entre romance e crescimento pessoal. As personagens são humanas, falíveis e fáceis de amar. Um final que faz jus a todo o percurso e que nos lembra porque gostamos tanto deste género.

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Balanço final
Dezembro terminou com emoções fortes e histórias que aqueceram o coração. Entre espelhos, manchas no coração, verões passados e finais felizes, foi um mês que reforçou o quanto o BL pode ser diverso, sensível e profundamente humano.

E agora, que venham as próximas histórias. 💫

 

Seg | 29.12.25

"Hell Followed With Us", Andrew Joseph White

Nelson Pradinhos

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Hell Followed With Us, de Andrew Joseph White, é um livro brutal, desconfortável e profundamente necessário. Uma história que não se lê de forma leve — lê-se com o corpo tenso e o coração apertado.

Num mundo pós-apocalíptico dominado por uma seita religiosa extremista, acompanhamos Benji, um rapaz trans que foge de um culto que espalhou um vírus capaz de transformar pessoas em monstros literais. Mas os horrores físicos são apenas uma camada da narrativa: o verdadeiro terror está na violência ideológica, na desumanização e no ódio disfarçado de fé.

Andrew Joseph White escreve com uma crueza impressionante. Não há suavizações nem concessões ao conforto do leitor. A dor, o trauma, a raiva e o medo estão sempre à superfície, especialmente na forma como o autor aborda a transfobia, o fanatismo religioso e a perda de identidade. É um livro que grita, que sangra e que se recusa a pedir desculpa por isso.

A representação trans é um dos pontos mais fortes da obra. Benji é um protagonista complexo, ferido, mas incrivelmente humano. A sua luta não é apenas pela sobrevivência física, mas pelo direito de existir tal como é, num mundo que insiste em destruí-lo. Há também espaço para amizade, ligação e pequenos momentos de ternura, que surgem como respirações curtas num ambiente sufocante.

No entanto, a intensidade constante pode ser exaustiva. Em alguns momentos, o ritmo e a repetição do sofrimento tornam a leitura pesada, o que pode afastar leitores menos habituados a narrativas tão sombrias. É essa exaustão emocional — intencional, mas ainda assim desgastante — que impede o livro de chegar às cinco estrelas.

Ainda assim, Hell Followed With Us é uma obra poderosa, corajosa e urgente. Não é um livro para todos, mas é um livro que precisa de existir. Um manifesto contra o ódio, envolto em horror corporal e distopia, que prova que monstros reais raramente têm garras — muitas vezes, têm discursos.

 

⭐ Classificação: 4 / 5

 

Seg | 29.12.25

"Quinze Dias", Vitor Martins

Nelson Pradinhos

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Quinze Dias é daqueles livros que aquecem o coração e ficam connosco muito depois de virarmos a última página. Uma leitura profundamente humana, sincera e reconfortante, que fala de crescimento, descoberta e amor, mas também de medo, vergonha, bullying e estigmas — tudo tratado com uma sensibilidade rara.

Acompanhamos Caio numa história que se constrói de forma natural e honesta, onde a amizade e o romance se entrelaçam com inseguranças muito reais. É impossível não nos apegarmos às personagens: Caio e Felipe são absolutamente cativantes, daqueles que nos dão vontade de entrar no livro e ser amigos deles. Cada página reforça essa ligação, tornando a leitura rápida, envolvente e emocionalmente rica.

O livro tem tudo o que um bom YA precisa — romance, comédia, drama — e ainda vai além. O humor surge nos momentos mais inesperados, arrancando gargalhadas genuínas, enquanto a representatividade LGBTQIA+ é tratada com respeito, verdade e carinho, tornando a experiência ainda mais especial. Para leitores mais nerds (como eu 😄), as referências espalhadas ao longo da narrativa são um verdadeiro bónus.

Há também um olhar muito importante sobre corpo, identidade e os padrões impostos, mostrando um romance que foge ao “esperado” dentro das narrativas gays e que, por isso mesmo, soa tão real. É uma história improvável, mas profundamente possível — e é isso que a torna tão bonita.

A única ressalva pessoal vai para a adaptação ao português de Portugal, que senti não ser totalmente necessária, embora compreenda a decisão editorial.

No fim, fica a sensação de alma cheia e coração quentinho. Quinze Dias é um livro que todos os adolescentes — e não só — deveriam ler, pelas lições que oferece e pela empatia que desperta.
Confesso: adoraria ver uma continuação. Estas personagens merecem mais dias, mais histórias e mais vida.

Leiam. Vale mesmo, mesmo a pena. 💛

 

⭐ Classificação: 5 / 5

 

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