A Livraria Latina prepara o seu regresso no Porto — agora pelas mãos da Bertrand

A Baixa do Porto está prestes a recuperar uma parte essencial da sua memória literária. A histórica Livraria Latina, encerrada desde janeiro, prepara-se para reabrir — desta vez integrada na rede Bertrand, que assumiu o espaço e já encheu as estantes com livros, sinal claro de que o regresso está para muito breve.
Fundada em 1942 por Henrique Perdigão, naquela esquina emblemática entre a Rua de Santa Catarina e a Praça da Batalha, a Latina é muito mais do que uma livraria. É uma casa que viu passar três gerações da família Perdigão e onde muitos leitores portuenses descobriram autores, conversaram com livreiros que sabiam aconselhar de olhos fechados e viveram um pouco daquela cumplicidade silenciosa que só os espaços literários conseguem transportar.
Antes de ser livraria, o espaço acolheu a loja de gramofones Casa Americana, mas rapidamente se converteu num polo vital para estudantes, académicos e leitores curiosos. A sua história inclui também episódios discretos de resistência: durante o Estado Novo, vendia clandestinamente livros proibidos, de Jorge Amado a Aquilino Ribeiro — um gesto que a transformou num símbolo de liberdade cultural quando a liberdade não era garantida.
O encerramento em janeiro de 2025 — explicado pelo grupo Leya como consequência da forte pressão imobiliária — foi recebido com tristeza. Muitos leitores despediram-se em lágrimas, comprando "o último livro" antes das portas se fecharem. E a Baixa ficou mais pobre: meses depois, também a FNAC da zona encerrou, acentuando a sensação de perda na vida cultural do Porto.
Mas esta semana surgiram sinais de renascimento. O Jornal de Notícias avançou que o interior da livraria voltou a ganhar cor: estantes cheias, luz acesa, movimento discreto. O letreiro “Leya na Latina” foi retirado e substituído por um toldo da Livraria Bertrand, a mais antiga livraria do mundo ainda em funcionamento — um detalhe que, por si só, parece honrar a herança da Latina.
Apesar de ainda não existir uma data oficial para a reabertura, o sentimento geral é de otimismo. Os comerciantes vizinhos mostram alívio e entusiasmo: para muitos, o regresso da Latina representa também o regresso de vida à Baixa, de leitores, de movimento, de cultura. “Assim, continua aqui o legado do fundador”, disse uma frequentadora habitual, lembrando com carinho as montras de Natal que a família Perdigão preparava com enorme dedicação.
Num momento em que a cidade assiste a transformações intensas e ao desaparecimento de espaços históricos, a reabertura da Latina não é apenas a recuperação de uma livraria — é a restituição de um pedaço de identidade coletiva.
E talvez seja isso que mais emociona: saber que, mesmo com novas mãos ao leme, a Latina continua a ser a Latina — um ponto de encontro para leitores, uma esquina carregada de memórias e um símbolo do que permanece, apesar das mudanças.
O Porto agradece.