Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Ter | 18.11.25

"Doce Tóquio" de Durian Sukegawa

Nelson Pradinhos

IMG_20220323_170152_343.jpg

Há livros que se abrem devagar, como flores de sakura, libertando beleza, silêncio e ternura a cada página. “Doce Tóquio”, de Durian Sukegawa, é um desses raros livros. Tão simples na superfície, tão profundo na alma.

Este romance, escrito no estilo japonês ao qual tenho vindo a habituar-me — delicado, pausado e cheio de significado — parte de uma pergunta essencial:
O que faz de nós humanos?
As relações que construímos? O papel que desempenhamos?
Ou a forma como sentimos o simples facto de estar vivo?

Sukegawa responde de forma tão subtil quanto devastadora:
somos humanos porque sentimos. Porque tocamos o mundo — e porque deixamos que o mundo nos toque.

 

Sentarō e Tokue: um encontro que muda destinos

A relação entre Sentarō e Tokue começa como um acaso numa rua de Tóquio… mas rapidamente se revela um encontro transformador.

Ele, um homem carregado de culpa, preso ao passado e à rotina.
Ela, uma mulher cuja vida inteira está marcada pela doença de Hansen, mas que guarda nas mãos um gesto perfeito:
mexer o feijão azuki com a paciência e a delicadeza de quem compreende que tudo na vida precisa de tempo para chegar ao seu auge.

Tokue não faz apenas an (pasta de feijão).
Tokue faz memórias.
Faz cura.
Faz silêncio que abraça.

E Sukegawa escreve como ela cozinha:
simples por fora, profundamente poético por dentro.

 

🌸 Mono no aware: a beleza do que passa

Há um conceito japonês que paira sobre toda a narrativa:
mono no aware, a consciência de que tudo é transitório — e de que precisamente aí reside a beleza.

Enquanto lia, sentia-me numa pequena loja de dorayaki, com o aroma doce a envolver a minha memória.
(A propósito: adoro dorayaki! E sim, Doraemon ajudou muito à fama destes bolinhos…)

A interação de Tokue com os clientes é luminosa, e é assim que surge Wakana, uma adolescente marcada pela solidão. A ligação entre ambas é intergeracional — como se Tokue lhe desse, nas pausas da cozinha, não apenas doces, mas também afeto, paciência e o tipo de atenção que Wakana não encontra em casa.

 

As sombras que o Japão ainda tenta esconder

Sukegawa também nos lembra que o Japão é lindo, sim — mas como todas as culturas, tem cicatrizes profundas.
E uma delas é a discriminação histórica contra pessoas com a doença de Hansen.

Mesmo depois da cura.
Mesmo depois da ciência.
Mesmo depois do tempo.

A forma como o livro retrata esta realidade é particularmente tocante. Não acusa, não grita — murmura.
E esse murmúrio é impossível de ignorar.

 

 Trechos que ficam — e que nos fazem pensar

“Comecei a compreender que nascemos para ver e escutar o mundo.
E é a única coisa que este mundo quer de nós.
A minha vida teve significado.”

“O mundo que essa criança sente existe por causa dela e, por conseguinte, a sua vida também tem um objetivo e um significado.”

“Fazia coisas doces para todas as pessoas que viviam com a tristeza da perda.
E foi assim que consegui dar um sentido à minha vida.”

São citações que nos prendem a respiração.
E que nos lembram: o simples também pode ser imenso.

 

🍂 Para terminar… um último pedaço de doçura

“Doce Tóquio” é daqueles livros que nos deixam com a mesma sensação do último pedaço de um doce muito especial:
sabemos que vai acabar, mas, enquanto dura, queremos que o sabor nunca se perca.

É uma história sobre humanidade, dor, cuidado, memória e beleza.
Sobre o valor do tempo, dos laços, do que fica mesmo quando tudo parece partir.

Um livro que não se lê apenas — sente-se.
E permanece.

 

⭐ Classificação: 5 / 5