"Esteros"

Esteros é um delicado drama argentino-brasileiro-francês realizado por Papu Curotto, que narra a história de dois amigos de infância — Matías e Jerónimo — que, na adolescência, partilham uma ligação intensa, silenciosa e cheia de desejo, antes de serem forçados a separar-se. Anos depois, já adultos, reencontram-se e encaram o que ficou por dizer, o que foi evitado e o que ainda pode florescer.
Os pontos fortes:
Ambiente e estética – A ambientação rural argentina (na zona dos Esteros do Iberá) confere ao filme uma beleza calma e contemplativa, que se torna parte essencial da narrativa. A natureza aqui quase representa o inconsciente dos protagonistas.
Química entre atores e representação da amizade/amor – A relação entre Matías e Jerónimo é construída com subtileza, evitando o excesso de dramatização e valorizando os olhares, os silêncios, o ambiente partilhado. O intérprete de Jerónimo, Esteban Masturini, destaca-se por uma presença natural que evita estereótipos LGBTQI+.
Temas reais e sensíveis – O filme aborda de modo adulto e sensível a homofobia interiorizada, a separação por circunstâncias, o retorno ao passado e a reconciliação com aquilo que se evitou.
Ritmo contemplativo – Para quem aprecia um filme que respira, com vindas e voltas temporais, olhares prolongados e menos diálogos explícitos, Esteros entrega esse ritmo com elegância.
A que prestar atenção / reservas:
O enredo não foge muito aos clássicos da temática “amigos que se amam, se separam, voltam a encontrar-se”. Alguns momentos soam previsíveis.
O ritmo lento pode não agradar a todos: se procura ação, viragens rápidas ou drama super-intenso, talvez sinta que falta algo.
Certas conveniências narrativas aparecem, especialmente no “momento de clímax” ou na mudança de vida dos protagonistas.
Por que dei 4 estrelas?
Porque Esteros é uma obra sensível e bonita, que merece ser vista — sobretudo dentro do panorama de cinema LGBTQI+ que valoriza histórias humanas e interiores mais do que grandes extravagâncias.
As 4 estrelas refletem que, apesar de não ser perfeita ou revolucionária, o filme cumpre aquilo que se propõe com alma, elegância e coerência.
Vale pela autenticidade, pela paisagem emocional que pinta e pela forma como leva o espectador a reflectir sobre o tempo, o amor, o que ficou por dizer.
Conclusão:
Se procura um filme que seja mais “sentido” do que “barulhento”, que valorize olhares e silêncios, e que trate de uma história gay com honestidade e coração — este é um título a não deixar de lado.
Esteros reserva-se para quem aprecia o quase-silêncio, o quase-beijo, o quase-acontecer — e encontra-se aí a beleza.
⭐ Classificação: 4 / 5