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Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

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Ter | 11.11.25

“Flesh”, do escritor anglo-húngaro David Szalay, vence Prémio Booker 2025

Nelson Pradinhos

“Flesh”, do escritor anglo-húngaro David Szalay, vence Prémio Booker 2025

O prestigiado Prémio Booker 2025 foi atribuído ao romance “Flesh”, do escritor anglo-húngaro David Szalay, numa cerimónia realizada em Londres. A obra, descrita pelo júri como “contida mas intensa”, foi destacada pela sua escrita poderosa e pela profundidade emocional com que explora os temas do desejo, da solidão e do poder.

 

 Um romance sobre o corpo, o poder e a passagem do tempo:

Em Flesh, acompanhamos István, um jovem húngaro de 15 anos que vive com a mãe num modesto complexo de apartamentos. Tímido e reservado, tem dificuldade em adaptar-se à nova escola e acaba por se isolar — até que uma vizinha casada se torna a sua única companhia.

A relação clandestina entre ambos desencadeia uma série de acontecimentos que o levam, ao longo das décadas, de uma juventude solitária à elite financeira de Londres, passando por experiências no exército e pela turbulência das ambições modernas.

O romance acompanha o protagonista desde a adolescência até à velhice, revelando como os desejos humanos — amor, intimidade, riqueza, estatuto — podem ser, ao mesmo tempo, motores de ascensão e forças destrutivas.

 

 A coragem de arriscar na escrita:

Durante o seu discurso, David Szalay reconheceu que “Flesh foi um livro arriscado” — não apenas pelo título provocador, mas também pela forma como expõe a vulnerabilidade humana sem filtros.

“É muito importante correr riscos, sobretudo na ficção. Não foi um livro fácil de escrever”, afirmou o autor, lembrando que começou este projeto após abandonar outro manuscrito.

O escritor irlandês Roddy Doyle, presidente do júri — e ele próprio um vencedor anterior do Booker —, sublinhou a singularidade da obra:

“Nunca tínhamos lido nada parecido. É, em muitos aspetos, um livro sombrio, mas é um prazer lê-lo.”

 

Os outros finalistas:

A edição de 2025 contou com uma lista de seis finalistas, todos elogiados pela crítica internacional:

Flashlight, de Susan Choi 

Audition, de Katie Kitamura 

The Rest of our Lives, de Ben Markovits 

The Loneliness of Sonia and Sunny, de Kiran Desai 

The Land in Winter, de Andrew Miller 

Apesar de ainda não estar editado em Portugal, David Szalay já é conhecido dos leitores portugueses com os títulos “Tudo o que um homem é” (2018) e “Turbulência” (2019), ambos publicados pela Elsinore.

 

O peso do Booker Prize

Criado em 1969, o Prémio Booker é um dos galardões literários mais importantes do mundo anglófono, atribuído anualmente ao melhor romance escrito em inglês e publicado no Reino Unido ou na Irlanda. O vencedor recebe 50 mil libras (cerca de 57 mil euros) — e, mais do que isso, uma projeção internacional imediata.

Com Flesh, David Szalay junta-se a uma lista de autores notáveis que já conquistaram o prémio, como Margaret Atwood, Salman Rushdie, Hilary Mantel e Kazuo Ishiguro.

 

 Uma vitória que reafirma o poder da literatura contemporânea

A vitória de Flesh reflete uma tendência da literatura contemporânea: obras que exploram o corpo, o desejo e a passagem do tempo como metáforas para a condição humana.

Mesmo sendo um romance descrito como “sombrio”, Flesh oferece um espelho honesto das contradições da vida moderna — a busca incessante por amor e poder, e a inevitável vulnerabilidade que nos torna humanos.

David Szalay confirma-se, assim, como uma das vozes mais consistentes e ousadas da ficção europeia atual.