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Onde o Mar Encontra as Palavras

Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

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Entre silêncios, memórias e aquilo que ainda quero dizer

Qua | 29.10.25

“O Outono que Espirrava Folhas: O Segredo das Bolachas Mágicas”

Capítulo 5 – "O Forno da Meia-Lua"

Nelson Pradinhos

Capítulo 2 Halloween.png

O caminho tornava-se cada vez mais estreito e sinuoso.

            As árvores do Bosque Douramel inclinavam-se suavemente, como se quisessem espreitar os viajantes curiosos.

            O luar escorria pelos galhos e transformava o chão num tapete prateado.

            O ar cheirava a canela, mel e a um segredo antigo.

            — Esta parte do bosque está diferente, — murmurou o Outono.

            — É o luar, — explicou Falco. — Ele desperta as memórias que dormem nas raízes.

            Samuel, porém, só pensava numa coisa.

            — Espero que as memórias saibam a bolacha… ou pelo menos a açúcar em pó.

            Falco riu-se com o seu ronronar grave.

            — A tua barriga tem mais opiniões do que um feiticeiro em assembleia.

            Seguiram por um trilho quase escondido, ladeado por flores que só abriam à noite.

            As pétalas brilhavam como pequenas lanternas, e o som do vento parecia transformado em música.

            De repente, as árvores abriram-se para revelar uma clareira iluminada pela lua.

            No centro, havia uma construção antiga — meio forno, meio casinha — feita de pedra clara e tijolos cor de abóbora.

            O Forno da Meia-Lua estava coberto de hera prateada, e a sua chaminé tinha a forma de um crescente.

            Em volta, o chão era coberto por folhas douradas e pedrinhas que brilhavam.

            O ar ali era diferente: quente, acolhedor, cheio de um cheiro doce que fazia cócegas no nariz.

            — Uau… — murmurou o Outono. — É mesmo um forno!

            — E ainda funciona, — disse Falco, orgulhoso. — Mesmo sem fogo, ele lembra o calor das gargalhadas que o acenderam pela primeira vez.

            Samuel olhou em volta, espantado.

            — E onde estão as bruxas?

            — Foram embora há muito tempo, — respondeu Falco. — Mas deixaram para trás algo mais forte do que feitiços — a alegria de partilhar.

            O gato aproximou-se do forno e pousou a pata sobre uma das pedras, onde estava gravado um símbolo em forma de espiral.

            Assim que Falco tocou no símbolo, este começou a brilhar sob a pata do gato, espalhando linhas de luz pelo chão, como raízes de fogo suave.

            As faíscas dançavam à volta deles, desenhando no ar pequenas formas — estrelas, luas, abóboras.

            Soltou um “plim!” tão sonoro que Samuel deu um salto.

            — Ai! — gritou o zombie. — Isso vai explodir?

            Falco revirou os olhos, divertido.

            — Calma, destemido herói das bolachas. O forno só está a espreguiçar-se.

            O símbolo começou a girar lentamente, e o chão tremeu de leve.

            — Este é o coração do Forno da Meia-Lua, — explicou Falco. — Cada volta da espiral é uma lembrança doce à espera de ser desperta.

            De repente, o ar ficou mais quente.

            As pedras do forno começaram a brilhar em tons de cobre e dourado, e o luar refletiu-se nelas como um espelho líquido.

            Um som suave ecoou — como risadas ao longe — e pequenas faíscas subiram pela chaminé em forma de crescente, desaparecendo no céu.

            Samuel olhou à volta, nervoso.

            — Estão a ouvir isso? Parece que alguém está a rir-se dentro do forno!

            Falco sorriu, sereno.

            — São as bruxas. Elas deixaram o riso preso no fogo, para o caso de alguém precisar de o reacender.

            O Outono observava, maravilhado, o brilho que crescia dentro do forno.

            O calor parecia dançar-lhe à volta, acariciando-lhe o rosto e o nariz.

            E então, inevitavelmente…

            — Atchimm! — espirrou.   

            Mas desta vez, o espirro não trouxe confusão nem vergonha.

            O vento que saiu do seu peito misturou-se com o luar, entrando no forno e fazendo as chamas dançar em espirais douradas.

            O bosque inteiro brilhou.

            Falco piscou o olho.

            — Vês, rapaz? Até as tuas alergias sabem quando o mundo precisa de um empurrão.

            O Outono sorriu. Pela primeira vez, espirrar soube-lhe bem.

            Lá dentro, algo começou a ganhar forma.

            Uma fornada de bolachas de abóbora apareceu, fumegante e dourada, com cheirinho de canela e luar.

            Samuel arregalou os olhos.

            — Conseguimos! — gritou ele. — As bolachas mágicas estão de volta!

            Falco abanou a cauda, satisfeito.

            — Sim…, mas lembra-te, rapaz: a verdadeira magia nunca está no forno — está em quem partilha o primeiro pedaço.

            O zombie olhou para as bolachas e depois para o Outono.

            — Então… metade para cada um?

            — Metade — concordou o Outono, sorrindo. — E o resto, para quem aparecer com fome.

 

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Nelson Pradinhos