“O Outono que Espirrava Folhas: O Segredo das Bolachas Mágicas”
Capítulo 5 – "O Forno da Meia-Lua"

O caminho tornava-se cada vez mais estreito e sinuoso.
As árvores do Bosque Douramel inclinavam-se suavemente, como se quisessem espreitar os viajantes curiosos.
O luar escorria pelos galhos e transformava o chão num tapete prateado.
O ar cheirava a canela, mel e a um segredo antigo.
— Esta parte do bosque está diferente, — murmurou o Outono.
— É o luar, — explicou Falco. — Ele desperta as memórias que dormem nas raízes.
Samuel, porém, só pensava numa coisa.
— Espero que as memórias saibam a bolacha… ou pelo menos a açúcar em pó.
Falco riu-se com o seu ronronar grave.
— A tua barriga tem mais opiniões do que um feiticeiro em assembleia.
Seguiram por um trilho quase escondido, ladeado por flores que só abriam à noite.
As pétalas brilhavam como pequenas lanternas, e o som do vento parecia transformado em música.
De repente, as árvores abriram-se para revelar uma clareira iluminada pela lua.
No centro, havia uma construção antiga — meio forno, meio casinha — feita de pedra clara e tijolos cor de abóbora.
O Forno da Meia-Lua estava coberto de hera prateada, e a sua chaminé tinha a forma de um crescente.
Em volta, o chão era coberto por folhas douradas e pedrinhas que brilhavam.
O ar ali era diferente: quente, acolhedor, cheio de um cheiro doce que fazia cócegas no nariz.
— Uau… — murmurou o Outono. — É mesmo um forno!
— E ainda funciona, — disse Falco, orgulhoso. — Mesmo sem fogo, ele lembra o calor das gargalhadas que o acenderam pela primeira vez.
Samuel olhou em volta, espantado.
— E onde estão as bruxas?
— Foram embora há muito tempo, — respondeu Falco. — Mas deixaram para trás algo mais forte do que feitiços — a alegria de partilhar.
O gato aproximou-se do forno e pousou a pata sobre uma das pedras, onde estava gravado um símbolo em forma de espiral.
Assim que Falco tocou no símbolo, este começou a brilhar sob a pata do gato, espalhando linhas de luz pelo chão, como raízes de fogo suave.
As faíscas dançavam à volta deles, desenhando no ar pequenas formas — estrelas, luas, abóboras.
Soltou um “plim!” tão sonoro que Samuel deu um salto.
— Ai! — gritou o zombie. — Isso vai explodir?
Falco revirou os olhos, divertido.
— Calma, destemido herói das bolachas. O forno só está a espreguiçar-se.
O símbolo começou a girar lentamente, e o chão tremeu de leve.
— Este é o coração do Forno da Meia-Lua, — explicou Falco. — Cada volta da espiral é uma lembrança doce à espera de ser desperta.
De repente, o ar ficou mais quente.
As pedras do forno começaram a brilhar em tons de cobre e dourado, e o luar refletiu-se nelas como um espelho líquido.
Um som suave ecoou — como risadas ao longe — e pequenas faíscas subiram pela chaminé em forma de crescente, desaparecendo no céu.
Samuel olhou à volta, nervoso.
— Estão a ouvir isso? Parece que alguém está a rir-se dentro do forno!
Falco sorriu, sereno.
— São as bruxas. Elas deixaram o riso preso no fogo, para o caso de alguém precisar de o reacender.
O Outono observava, maravilhado, o brilho que crescia dentro do forno.
O calor parecia dançar-lhe à volta, acariciando-lhe o rosto e o nariz.
E então, inevitavelmente…
— Atchimm! — espirrou.
Mas desta vez, o espirro não trouxe confusão nem vergonha.
O vento que saiu do seu peito misturou-se com o luar, entrando no forno e fazendo as chamas dançar em espirais douradas.
O bosque inteiro brilhou.
Falco piscou o olho.
— Vês, rapaz? Até as tuas alergias sabem quando o mundo precisa de um empurrão.
O Outono sorriu. Pela primeira vez, espirrar soube-lhe bem.
Lá dentro, algo começou a ganhar forma.
Uma fornada de bolachas de abóbora apareceu, fumegante e dourada, com cheirinho de canela e luar.
Samuel arregalou os olhos.
— Conseguimos! — gritou ele. — As bolachas mágicas estão de volta!
Falco abanou a cauda, satisfeito.
— Sim…, mas lembra-te, rapaz: a verdadeira magia nunca está no forno — está em quem partilha o primeiro pedaço.
O zombie olhou para as bolachas e depois para o Outono.
— Então… metade para cada um?
— Metade — concordou o Outono, sorrindo. — E o resto, para quem aparecer com fome.
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Com carinho,
Nelson Pradinhos